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Inês N. Almeida

Inês N. Almeida

Não é incapacidade nem procrastinação. É falta de plano. /It's not inability or procrastination. It's lack of planning.

Inês Nobre de Almeida, 09.05.24

Olá Olá,

o National Novel Writing Month (NaNoWriMo) terminou há mais de uma semana, já era tempo de vos vir falar deste que foi um mês intenso de muita escrita e também algumas aprendizagens. Comecemos pelo princípio: o National Novel Writing Month (Mês de Escrita do Romance) - NaNoWriMo como costuma ser abreviado - é um desafio que acontece todos os anos em Abril e em Novembro (ambos meses com 30 dias). Durante esses dias, escritores definem uma meta de escrita que por defeito são 50.000 palavras (descobri tarde demais que dava para alterar).

50.000 são muitas palavras. Muitas horas à frente do computador. Quando dei início ao desafio, olhei para a meta como uma impossibilidade, mas achei que o desafio me daria consistência de escrita. Eu já escrevo todos os dias por norma. Há dias em que escrevo um parágrafo, outros em que escrevo cinco páginas. Achei que o NaNoWriMo me ajudaria a escrever mais palavras por dia - para cumprirmos o desafio temos de escrever 1.600 palavras por dia, chegando às 50.000 no dia 30. Mesmo que não cumprisse esse objectivo final das 50.000 palavras, pensei, seria bom cumprir pelo menos as 1.600 por dia em alguns dias. Falhei redondamente o objectivo na primeira semana. E nas semanas seguintes, em alguns dias também. Sobretudo dias de semana, em que trabalho. Compensava nas folgas, escrevia mais que as 1.600 palavras nesses momentos.

Mas mais do que este compensa aqui, puxa ali, o que me fez conseguir cumprir o objectivo de 50000 palavras em 30 dias (no meu caso foram 29 dias que só comecei no dia 2 de Abril) foi algo muito diferente. Foram as lições que aprendi ao longo deste processo:

  • É óptimo ter metas e prazos definidos - sabermos que temos um certo tempo para escrever um determinado número de palavras permite-nos planear a nossa rotina de escrita, algo que nunca fiz e este mês aprendi quão importante é. Não tinha conseguido cumprir o meu objectivo se não definisse os dias em que conseguiria escrever mais ou escrever menos e cumprisse esse plano. 
  • Caderno para todo o lado - Relacionado com o tópico de cima também, é crucial andar com um caderno para todo o lado. Já ando, por norma, mas costumava escrever só na minha hora de almoço, à noite depois do trabalho. Durante o mês passado, escrevi em paragens de autocarro, escrevi nos próprios transportes, escrevi onde conseguia porque tinha um caderno sempre comigo.
  • É preciso ter pelo menos um plano geral antes de se escrever - Eu não tinha. O resultado? Vou na terceira ronda de edições e em vez de estar a olhar à ortografia e às palavras que soam melhor ou pior ainda estou a fazer mudanças estruturais na história porque há questões por responder. Além disso, nos últimos dias do NaNoWriMo dei por mim, novamente, a não saber muito bem onde integrar algumas coisas que têm de acontecer pois não tinha um plano. Foi a primeira coisa que defini assim que o desafio chegou ao fim.
  • Pode ser importante escrever coisas que nunca vão acontecer no projecto final - Estando a chegar à terceira e última parte da história que estou a escrever, apercebi-me de que não era assim tão claro na minha mente como tinha acontecido A CENA que empurra todo o enredo para a frente logo num dos capítulos iniciais. A cena em causa não estará escrita na história, apenas a reacção das personagens ao que acontece, mas é importante que eu, que estou a escrever, saiba ao pormenor como tudo aconteceu. Essa cena está neste momento escrita no meu caderno e provavelmente nunca de lá irá sair. Mas, pelo menos, consigo visualizá-la de forma muito clara. 

Se também estão a escrever e a aprender como isto se faz (como eu também ainda estou), espero que estas minhas aprendizagens do NaNoWriMo e dicas sejam úteis! Têm outras? Partilhem nos comentários!

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Hello, hello!

National Novel Writing Month (NaNoWriMo) has ended over a week ago, it's time to tell you about this intense month of writing and learning. For those of you who don't know what NaNoWriMo is, it's a chellenge which happens every year in April and November (both months with 30 days). For those days, the writers establish a goal which, by default, is 50000 words (I found out too late that I could actually change it).

50000 are a lot of words, lots of hours in front of a computer screen. When I started the challenge, I looked at that goal as something impossible. I just thought the challenge would make me more consistent with my writing. I already write every day. Some days I write a paragraph, others I write five pages. I thought NaNoWriMo would help me writing more words per day - to complete the challenge we have to write, on average, 1600 words a day. Even if I didn't accomplish the 50000 word goal, I thought, at least I could try achieving the 1600 daily goal in some of the days. I failed greatly on the first week. The following weeks, I missed the mark on some days too, particularly week days, in which I work. I made up for it on my days off.

More than making up for it on weekends, what made it possible for me to achieve the 50000 word in 30 days goal (I did it in 29 days, as I started April 2nd) was something totally different. It was everything I learned throughout this month:

  • It's amazing having goals and deadlines - Knowing we have a certain deadline to write a certain number of words allows us to plan our writing routine, something I have never really done and this month I learned just how important it is. I would never have achieved my goal if I didn't set the days in which I knew I absolutely could write more or for longer, and those days which I would have less time.
  • Notebook everywhere - Also related with the topic above, it's crucial to have a notebook on me all the time. I usually carry one already, but only wrote on my lunch break, at night after work. During April, I wrote on bus stops, on the transports themselves, wherever I could, because I always had a notebook on me.
  • It's necessary to at least have a general plan for the story before writing - I didn't. What happened? I'm in my third round of edits and instead of nitpicking words which sound better or catching quick typos, I'm still doing structural changes because there are unanswered questions and not on purpose. Besides, in the final days of NaNoWriMo, I found myself, again, not really knowing how to incorporate things I knew had to happen, because I did not have a plan. First thing I did after the challenge was over was to set a plan.

  • It may be important to write things which will never end up in the final version - I'm starting the third and final part of my story and I realized that it wasn't all too clear in my mind how THE SCENE which moves the whole plot forward right at the beginning happened. That scene will not be part of the novel, the reader will only get to see its aftermath, how characters react to it, but it's important that I, the writer, know how it happened, in detail. That particular scene is currently written in my notebook and will probably never leave its pages. At least, I can see it so clearly now.

    Are you also writing and learning how to do it (as I still am)? If so, I hope these things I learned from NaNoWriMo also help you! Have other tips? Share in the comments!

Review "The Leftovers"

Inês Nobre de Almeida, 03.05.24

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2/5

 

Abril foi um mês de óptima escrita mas de leituras pouco satisfatórias. Não sei como é convosco mas, para mim, ler um mau livro é como comer uma má refeição: deixa uma certa sensação de desperdício que não me agrada, quanto mais não seja desperdício do meu tempo. Se bem que diz-se (e eu até concordo) que com maus livros também se aprende. 

Ainda assim, é preciso dizer: "The Leftovers", de Tom Perotta, o terceiro e último livro que li em Abril, tem uma boa premissa. Anos após o que foi descrito como um evento apocalíptico em que milhões de pessoas desapareceram da face do planeta sem explicação, os cidadãos de uma pequena cidade - Mapleton - ainda têm dificuldade em lidar com as perdas que sofreram e com o regresso da vida à normalidade possível. 

Conhecendo esta premissa e tendo o livro sido recomendado por um grande amigo que conhece muito bem os meus gostos literários, tinha expectativas altas para esta história. Porém, depressa me deparei com o motivo que me levou a não gostar de o ler - uma descarada e insuportável misoginia. Todas as personagens femininas do livro são objectificadas - se jovens, são descritas como atraentes, há constantes referências aos seus seios e ao resto do corpo também; Nora, uma das personagens principais, tem 46 anos, e é descrita como se já estivesse a definhar. A certo ponto, ainda bastante no início, pode ler-se "Mas ela era uma mulher de meia idade, uma esposa e mãe de 46 anos, cujos melhores anos já estavam atrás dela. Meg, era uma jovem de vinte e poucos anos, sexy". 

Mais para a frente, sobre as mesmas duas personagens, surge esta frase: "Elas só tinham tido um encontro desagradávek com um par de otários fora do hotel. Não tinha sido horrível, apenas os insultos habituais e comentários sexuais vindos do que estava mais bêbedo, um homem bem-parecido e sorriso arrogante que pôs o braço à volta de Meg como se fosse sua namorada e disse 'eu fodo a bonitinha, tu podes ficar com a avó". 

E daí para a frente só piora. Iria escrever uma publicação muito, muito longa se vos contasse todos os pontos desta história que me fizeram atirar o kindle pela janela do autocarro onde normalmente leio. Terminei o livro uma vez que o enredo era, de facto interessante mas confesso - esta constante objectificação das personagens femininas fizeram com que não prestasse atenção a muito do que estava a acontecer. 

Este mês de Abril foi um dos momentos da minha vida em que dei por mim a pensar muitas vezes "felizmente, há muitos mais livros para ler" e tenho dois planeados para este mês pelos quais estou muito ansiosa! Aguardem. E boas leituras desse lado!

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2/5

 

April was an amazing writing month but terrible in the reading department. I don't know about you guys but, for me, reading a bad book is like having a bad meal: I'm left with a feeling of wastefulness I do not like,  at the very least, waste of my time. Although, it's said (and I believe), I can also learn from bad books.

I have to say: "The Leftovers" by Tom Perotta, the third and last book I read in April, has a great premise. Years after what is described as a cataclismic event in which millions of people just vanish from the face of the planet with no explanation, the residents of a small town - Mapleton - are still struggling to deal with loss and with moving on with their life.

Knowing this premise beforehand and having the book been recommended to me by a friend who knows my literary tastes so well, I had high expectations. But soon I was faced with the reason which makes me hate it - an unbearable misoginy. All the female characters are objectified. If they're young, they're always hot and there are numerous comments on their bodies. Nora, one of the main characters, is 46 and is described as if she is withering already. At a certain point is said "But she was a middle-aged woman, a forty-six year old wife and mother whose best years were behind her. Meg was sexy, wide-eyed girl in her midtwenties."

And it goes on. At some point, the two characters have a chance meeting with two men on the street. This is how the situation is described: "It hadn't been horrible, just the usual insults and a crude sexual invitation from the drunker of the two, a good looking guy with an arrogant grin, who put his arm around meg as if she were his girlfriend. 'I'll fuck the pretty one. You can have grandma". 

It doesn't end there. I could write a very long post if I were to explain all the points in the book I felt like throwing my kindle out of the bus window. I finished the book anyway, only because I was invested in the premise. Still, I admit, the constant mysoginy made me barely pay attention to what was happening in terms of plot after a while.

In April, I found myself thinking that, fortunately, there are plenty of great books I will still read. I have two planned for May which I am really excited about! Wait for it. Happy readings!