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Inês N. Almeida

Inês N. Almeida

Review: "As Coisas Que Faltam"

Inês Nobre de Almeida, 31.10.24

20241025_143340.jpg3.5/5

É quase ironia vir abordar este livro agora. Há uma semana escrevi sobre o que nos faz gostar - ou não - de livros e expliquei que tendo a preferir livros consoante o enredo, mais do que pelas personagens.

No caso deste livro é ao contrário. A Ana Luís, personagem principal, é a maior razão pela qual eu gostei deste primeiro romance da Rita da Nova. É uma clássica jornada do herói. Temos uma personagem, ela tem uma missão e, de imediato,  torcemos para que seja bem-sucedida. Só adorava ter passado mais tempo com ela (personagem) - mas já lá vamos. 

Primeiro a sinopse: Crescendo apenas com a mãe, aos oito anos, Ana Luís pede-lhe pela primeira vez para conhecer o pai. Habituada a constantes "nãos" mesmo em coisas como ir a casa de colegas, não se surpreendeu quando a resposta negativa chega. No entanto, dói. Sobretudo a partir desse momento, Ana Luís cresce com o sentimento de falta de alguma coisa, exacerbado pela dependência de uma mãe controladora e, em grande parte, fria. Ana Luís tem a certeza de que, quando conhecer o pai, a sua vida será diferente e, à revelia da mãe, decide procurá-lo. 

À Ana Luís pode faltar muita coisa, a mim só me faltou uma: um calendário. Ou seja, uma melhor noção de como o tempo passa ao longo deste romance. Tudo acontece tão depressa. Vou tentar não dar imensos spoilers, mas, em apenas 252 páginas vamos desde a infância da Ana Luís até à sua vida adulta. Embora compreenda a intenção (e intenção é o critério que impera na escrita) de incluir todos estes pequenos momentos da vida dela isso faz com que a história seja contada de uma forma apressada. Gostava de me ter demorado mais em alguns pontos: aqueles em que ela idealiza a vida com o pai como forma de lidar com a sua vida real, aqueles em que dá para ver que ela usa as relações - nomeadamente amorosas - para colmatar esta "falta" que sente sempre. Precisava de ir mais devagar, por exemplo, no momento em que ela conhece o Raul (a sua primeira relação séria) e no início em que a relação é boa. Precisava de perceber melhor quanto tempo passa entre as sucessivas tentativas de contacto com o pai que a Ana Luís faz. 

Há também neste romance o retrato de alguma dependência feminina em relação aos homens na sua vida, ânsia perante a possibilidade de perda, que, embora me tenha feito revirar os olhos, mais uma vez, compreendo que esteja alinhado com esta personagem que se sente sempre incompleta por não conhecer o pai. Lê-se muito a expressão "ser deixada" ou "receber de bom grado migalhas", muito esta noção de dependência que causa comichão, mas, lá está, dado o historial desta personagem, entendo de onde vem. 

Ana Luís é uma personagem bem construída, com profundidade, defeitos - como temos todos - e é isso que a torna tão cativante. Mesmo que a nossa vida não seja como a da Ana Luís, vemo-nos logo impelidos a torcer por ela, queremos que obtenha aquilo que sempre procurou e queremos saber como vai lá chegar. 

O final é expectável, mas satisfatório. Exactamente como diz a última frase: "As coisas são como são e isto tinha de ser assim". 

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3.5/5

It's almost ironic that I am writing about this book now. A week ago, in this blog, I wrote about what makes us like - or not like - certain books and I explained I tend to like books for the plot more than because of the characters. In this case, it was totally the opposite. Ana Luís, the main character, is the main reason I enjoyed this first novel by Rita da Nova. It's the classic hero's journey. We have a character, she is on a mission and, immediately, we are rooting for her to succeed. I would love to have spent more time with her (the character) though. But we'll get to that later. 

First, the synopsis: Growing up with only her mother, at eight-years-old, Ana Luís asks her for the first time to meet her father. Used to hearing the word "no" often in the simplest things like asking to go meet friends, she wasn't surprised when her mother so quickly refused it. Still, it hurt. From that moment on, Ana Luís grows up with the feeling that something is missing from her life, exacerbated by her controlling and cold mother. Ana Luís is sure that, when she meets her father, her life will be different. So, she sets off to find him. 

Ana Luís' might feel like she is missing out on a lot, but the only thing I felt that was missing was a calendar, or, more specifically, a better understanding of how time passes in this novel. Everything happens so quickly. In just 252 pages we go from her childhood to her adult life. And although I understand the intent (and intent is the most important criteria in writing) of including all of these moments of her life, that rushes the story and I would have liked to spend more time on some moments like those when she idealizes her life when she meets her father (as a way of dealing with her real life) or those where we can see how she uses her relationships to make up for what she feels is missing from her life. I needed the novel to slow down a bit, for example, when she meets Raul (her first serious boyfriend) and in the beginning when their relationship is good. I also needed to understand better how much time passes between each time she tries to reach her dad. 

There are also some moments in this novel that portray the ever-present in fiction feminine dependence on the men in their life that, although it made me roll my eyes, I understand how it aligns with this character who always feels incomplete because she doesn't know her father. 

Ana Luís is a well-crafted character, with depth, with flaws - as we all have - and that's what makes her so captivating. Even if our life isn't, at all, like hers, we can't help but root for her, we want her to get what she has always been looking for and we want to know how she is going to get there. 

The ending is predictable, but satisfactory. As the last sentence says "things are how they are, and this is how it had to go".

 

 

Porque gostamos (ou não) dos livros que lemos?/ Why do we like (or not) the books we read?

Inês Nobre de Almeida, 24.10.24

Esta semana foi de trabalho e de me debruçar sobre questões sobre as quais só comecei a pensar mais recentemente, por consequência do que tenho feito. Há uns meses, quando escrevi sobre "A História de Roma" da Joana Bértholo (podem ler a publicação completa aqui) contei-vos que era um teste para ser leitora freelancer para a London Literary Scouting. Desde aí (como é que Julho já parece ter sido há tanto tempo?) li mais manuscritos para eles em que o propósito é, à primeira vista, simples. Tenho de responder às perguntas: este livro deve ser traduzido para outra língua? Deve ser adaptado para série ou filme?

A questão de ser traduzido para outra língua pode ser colocada de outra forma: o que está ali escrito é universal? A partir do momento em que me coloquei essa questão senti-me a Alice no País das Maravilhas a seguir o coelho pelo bosque e a ser levada para um buraco que parece não ter fundo. A questão da universalidade leva a outras. Como é que sabemos o que é universal? O que é que faz com que um livro seja adorado por muita gente mesmo que não por toda a gente (isso não existe): Temas.

A questão dos temas na literatura sempre me fez revirar os olhos. Porque é que uma história tem absolutamente de ter um tema específico? Não chega ser uma boa história? Porque é que temos de identificar que, na verdade, a história não é sobre as personagens e o que lhes acontece, antes sobre este ou aquele tema? A resposta é esta: pela questão da universalidade. É preciso identificar os temas sobre os quais um livro está realmente a debruçar-se ao contar uma determinada história para perceber se é algo que as pessoas, mesmo que não vivendo naquela realidade específica, vão perceber.

"A História de Roma" fala de um ex-casal que se reencontra dez anos depois de se ter separado. As duas pessoas passeiam por Lisboa e relembram vários momentos da relação - cada um de forma bastante diferente. O verdadeiro tema deste livro, porém - percebemos ao ler - é a memória e também a questão da maternidade. Um leitor (talvez, em particular, uma leitora) em qualquer parte do mundo tem experiências que lhe permitem relacionar-se com o que a personagem está a viver dada a universalidade dos temas. 

É o facto de nos identificarmos com uma personagem que faz com que gostemos ou não de um determinado livro? Não necessariamente. Em primeiro lugar, depende do tipo de livro: há livros claramente mais focados no enredo, outros no desenvolvimento de personagens. Depois, relacionado com isto, do tipo de leitor que somos - eu tendo a ser uma leitora que prefere um livro com um bom enredo do que um em que se perde imenso tempo a desenvolver personagens mas às quais nada acontece. 

Alguma vez pensaram sobre que tipo de leitor são? Mesmo que nunca o tenham feito, façam-no agora. Pensem: Que género de livros vos atrai mais? É o enredo que vos agarra? São as personagens? Há também quem prefira livros passados ou num cenário complexo - como o caso de livros de Fantasia - ou num cenário que adoram (por exemplo, determinada cidade).

Digam-me nos comentários a vossa preferência e podemos partilhar recomendações de leitura!

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This week was work-heavy and it made me think about some things I have only recently started to wonder about as a consequence of what I have been doing. A few months ago, when I wrote about "A História de Roma" ("The History of Roma") by Joana Bértholo (you can read the post here ) I told you it was a test to be a freelance reader for London Literary Scouting. Since then (how was July seemingly so long ago already?) I read more manuscripts for them and the goal, at first glance, is simple. I have to answer the questions: can this book be translated to another language? Should it be adapted as a show or a film?

The question regarding translating it to another language can be posed differently: is what is written in that book universal? From the moment I wondered about that, I felt like Alice in Wonderland going down a massive rabbithole. The question about it being universal or not, poses others. How do we know what is universal? What makes a book be loved by many people (not everyone, that doesn't exist): themes.

The issue of themes in literature always made me roll my eyes. Why does a story absolutely need a specific theme? Isn't it enough that it's a good story? Why do we have to point out that a story is not in fact only about characters and what happens to them but also about this or that theme? The answer is exactly that - so we know what is universal or not. It's necessary to identify the themes of a book to understand if it's something that people, even those not living in that specific reality, will understand and relate to.

"The History of Roma" is the story of an ex-couple that meets once again in Lisbon 10 years after their break-up. While they wonder through the city, they recall moments of their relationship - each of them remembers it very differently. The real theme of this book, though - we understand by reading it - is memory and motherhood. A reader anywhere in the world will have experiences that help him relate with what those characters are living through because those themes are universal. We all have memories.

Is it the fact that we relate to a character which makes us like a book? Not necessarily. To begin with, it depends on the kind of book. There are books clearly more plot-focused, others more character-focused. Then, related to this, it depends on the kind of reader we are. I tend to prefer books with a great plot even if the characters aren't super fleshed out rather than one with amazing characters where nothing happens.

Have you ever thought about the kind of reader you are? Do it now. What kind of book do you gravitate towards? Is it the plot that grabs you? Is it the characters? Is it the setting? Some people might prefer a complex setting - like in fantasy books - or a setting they love (namely a city they visited and loved).

Tell me in the comments your preferences and maybe we can swap book recommendations!

 

Enviei o meu manuscrito a editoras no dia em que foi anunciado o Nobel da Literatura/I sent my manuscript to publishers on the day the Nobel Prize in Literature was announced

Inês Nobre de Almeida, 17.10.24

Parabéns à Han Kang, premiada com o Nobel da Literatura 2024! Dela só li "A Vegetariana" (podem ler a minha opinião aqui). No mesmo dia em que o Nobel foi anunciado (quinta-feira), enviei o manuscrito no qual trabalhei desde 2021, às editoras portuguesas que publicam novos autores e o género de livro que escrevi. Foi coincidência e, obviamente não quer dizer nada. Basta ver a dificuldade que estou a ter em fazer uma história com duas linhas temporais funcionar (um grande obrigado à Joana Bértholo pela dica que deu, sem saber, ao falar do seu "A História de Roma). 

Antes de enviar, compus o e-mail e pedi a um amigo que lesse para ter a certeza de que era claro, de que não tinha gralhas e de que não estava a faltar nada relevante em termos de informação a dar. Calha que, nesse exacto momento, ele está prestes a entrevistar sobre a atribuição do Nobel à Han Kang uma das pessoas a quem eu enderecei o meu manuscrito. E ele contou-lhe que eu o tinha feito. O meu texto já não existe só neste computador portátil que também uso para escrever estas publicações semanais. Está na caixa de entrada de quatro pessoas que vão lê-lo e podem gostar ou não. 

Agora resta esperar pelas respostas que hão-de demorar, se chegarem. As editoras devem receber milhentos e-mails por dia com novos manuscritos e qualquer um de nós que já tenha tido demasiados e-mails por ler na caixa de entrada percebe a vontade que dá de não abrir nenhum. Espero que não seja esse o caso. 

Se também estiverem a tentar encontrar editora, deixo aqui a melhor dica que alguma vez recebi: direccionem o vosso e-mail o mais possível. O que quero dizer com isto? investiguem as editoras que aceitam publicar novos autores, mais do que isso, entre essas, aquelas que publicam o género de história que escreveram. Além disso, informem-se sobre os editores também. No meu caso, quando já tinha a lista de editoras que aceitam submissões de manuscritos de novos autores, andei a passear por FNACs e Bertrands de Lisboa a ver que livros dessas editoras alinhavam com o meu e abria a primeira página para ver quem os tinha editado. Quando enviei os meus e-mails na quinta-feira, enderecei-os a esses editores especificamente. 

Boa sorte!

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Huge congratulations to Han Kang who was awarded the Nobel Prize in Literature 2024! By her, I have only read "The Vegetarian" (you can read my review here). On the same day the Nobel was announced (thursday), I sent the manuscript I have been working on since 2021 to the publisher in Portugal which publish new authors in the genre I wrote in. It was a coincidence and it clearly doesn't mean anything. Just look at how much I have been struggling to make my dual-timeline story work (a huge thank you to Joana Bértholo for the tips she inadvertedly gave just by talking about her book "A História de Roma").

Before sending it, I wrote the e-mail and asked a friend to look it over to make sure it was clear, had no mistakes or typos, and that nothing relevant was missing. In that moment, he was about to interview about Han Kang's Nobel one of the people I sent my manuscript to. And he told her I had sent it. Now, my manuscript is no longer just on my computer, the same I sit at to write these weekly posts. It's in the inbox of four people who will read it and may like it or not. All I can do is wait for replies which will take a long time if they ever arrive. Publishers must receive a thousand e-mails a day with new manuscript and anyone who has had a little too many unopened e-mails in their inbox knows how much you just feel like not opening any of them. I sure hope that is not the case here.

If you're also trying to find a publisher for your books, here's the best tip I ever got: make your e-mail as specific as possible. More than investigating if the publishers accept publishing new authors, and if they publish the genre you write in, try to know more about the editors working for each publisher as well. Once I had a list of the publishers I wanted to contact, I went to bookshops in Lisbon and opened books that thematically were similar to mine to see who had edited them. When I sent the e-mails, even if I was only given a general e-mail address, I directed my e-mail to that specific editor.

Good luck!

 

 

Review: "Teoria das Catástrofes Elementares"

Inês Nobre de Almeida, 10.10.24

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4

Este livro agarra-nos desde o primeiro capítulo com uma história sobre o atropelamento da mãe da personagem principal. Desde logo, Rita Canas Mendes demonstra o que é, para mim, o maior feito desta obra: cada capítulo podia ser um livro inteiro. O leitor é de imediato transportado para aquelas histórias e queremos saber mais sobre o que está a acontecer a cada personagem.

No entanto, foi o segundo capítulo que me fez não conseguir parar de ler (a não ser quando tive de interromper para ler outro livro por causa de trabalho - daí ter demorado um bocadinho mais a partilhar aqui a review).

Nesse segundo capítulo, a personagem principal está com o pai no Registo Civil. Já tiraram uma senha e estão à espera de ser chamados. Quem nunca esteve numa situação dessas de espera ansiosa em que o tempo parece não querer avançar? A forma como a Rita Canas Mendes integra a contagem do número das senhas que vão sendo chamadas com as divagações do pai demonstra uma mestria do uso da palavra que é invejável. Exactamente pelo modo como o capítulo está escrito, de imediato, somos transportados para aquela sala, para aquela espera, e nos revemos no que está a acontecer. 

Mas este é só o princípio de uma obra muito mais abrangente. "Teoria das Catástrofes Elementares" aborda temas como relações familiares complexas, parentalidade, colonialismo e relações históricas com África. Sobretudo, um pouco ao longo de todos os capítulos, este livro fala do que é ser mulher nos anos 80 e 90 mas também ainda hoje em dia. Abusos nas mais diversas relações. No sistema.

Um dos capítulos mais poderosos é um autêntico grito do Ipiranga. Não posso escrevê-lo aqui todo, mas deixo um cheirinho do que é este capítulo XXXI: "Não percebo como é que não está tudo aos gritos na rua. Eu estou a passar-me com este estado de coisas... Na sexta-feira, na manifestação, a dada altura cantava-se 'mulheres em luta, contra os filhos da puta'. Mas eu não tenho nada contra as putas, o problema são os filhos, os que se tornam agressores. Onde é que estão os pais nessa história? - Foram eles que os ensinaram? Como é que alguém passa de criança a criminoso? Como é que uma rapariga se defende de uma alcateia? Porque a alcateia está a toda a volta - os agressores, os polícias, os juízes, os pais e, às vezes, também as mães. Todos achando-se no direito de subjugar o outro, ou melhor, a outra. Não importa a idade, a beleza, o estatuto social. Ser-se mulher, já para não falar de uma que pertença a uma minoria, é estar-se à mercê. Podem ser virgens em comunidades religiosas ou putas em bordéis, a opressão está sempre lá. Eu sei que a mãe está um bocado chocada por me ouvir falar assim, mas não aguento mais. A revolta com este sistema é tão grande, tão grande. Nós vivemos com isto tudo, carregamos os traumas todos os dias e ainda temos que aturar piropos nojentos na rua. Agora que finalmente estamos a falar disto, com o MeToo, o foco não deve estar no Me, e sim no Too. O problema não é só meu ou só da mãe, é de todas. O problema é de todos, e em todo o lado, no mundo inteiro. A mãe tem de vir marchar comigo no dia 8 de março. Temos de fazer barulho. Isto não pode continuar assim. Estou farta, farta, farta."

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4

 

This book grabs our attention from chapter one with a story about the main character's mother being run over. From that moment on, Rita Canas Mendes shows what is, for me, the best thing about this book: each chapter could be its own entire book. The reader is immediately transported to those stories and we want to know more about what happens to each character. But it was chapter two which made me not want to stop reading (unless I had to interrupt to read something for work).

In that second chapter, the main character is with her father in A Civil Registry Office. They have a number and are waiting to be called. Who among us has never been in those situations when the more you want the time to pass, the more it seems to drag? The way Rita Canas Mendes weaves the counting of the numbers as people are being called with the father's rambling shows a mastery of the written word which is enviable.

But this is only the beginning of a much larger work of fiction. "Teoria das Catástrofes Elementares" goes onto themes such as complex family dynamics, parenthood, colonialism and historical ties to Africa. Most of all, throughout all the chapters, this book talks about what it's like being a woman in the 80s and 90s as well as today showcasing several types of abuse in different relationships and the system itself.

Written only in Portuguese for now, I do hope this book gets translated to more languages so other people can experience it. I believe every woman in the world will relate to even if just one of the situations portrayed in the book and that is also why it's so important.

Personagens memoráveis e adaptações/Memorable characters and adaptations

Inês Nobre de Almeida, 03.10.24

 

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Vou começar a publicação de hoje dizendo aquilo que alguns leitores mais puritanos considerariam um sacrilégio: sim, há adaptações cinematográficas que são mais memoráveis que os livros de origem. Porém, não é por isso que esta fotografia ilustra a publicação de hoje. 

Sexta-feira passada morreu Maggie Smith, actriz incrível que, embora tenha actuado em mais de 80 filmes e séries, para mim será para sempre a Professora Minerva McGonagall dos filmes Harry Potter. Já li estes livros duas vezes, no entanto, por mais que me concentre e tente pensar, não me lembro de qualquer descrição da personagem. Não sei como são as suas feições, não recordo a  cor dos olhos ou cabelo. 

Quando penso na professora McGonagall penso imediatamente na interpretação feita pela Maggie Smith que cresci a ver nos filmes (e já vi todos dezenas de vezes de certeza absoluta). 

Outro exemplo, bastante diferente, que ficou sempre na minha mente - tendo já visto o filme muito mais vezes do que li o livro - foi Anthony Hopkins a interpretar Hannibal Lecter no "Silêncio dos Inocentes". Neste caso, lembro-me que até a descrição física da personagem no livro era diferente: tinha seis dedos numa mão, era moreno, olhos escuros. Não sei quem foi o director de casting que leu essa descrição e pensou "bora contratar o Anthony Hopkins", mas quem não pensa nele quando ouve o nome "Hannibal Lecter"? O Thomas Harris que me desculpe, mas não é a versão dele da personagem que é memorável. 

Poucos actores além destes dois tiveram a capacidade de me fazer esquecer por completo a versão literária das personagens que interpretaram e, sem dúvida, que isso é mais que prova do seu enorme talento.

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I'm going to start by saying something that some readers, a bit more exigent, will find sacrilegious: yes, there are film adaptations that are more memorable than the books they're based on. That is not why that image illustrates today's post though.

Last Friday, Maggie Smith died. She was an amazing actress and although I know she acted in over 80 films and tv series, she will always be Professor Minerva McGonagall in the Harry Potter films. I have read the books twice and, no matter how much I think about it, I can never remember a description of the character. I don't know what she looks like in the books, what the hair colour are supposed to be or the colour of her eyes. Every time I think about McGonagall, I immediately think of Maggie Smith's interpretation I grew up watching in the films (and I have watched all of them dozens of times for sure).

Another example, really different, that always comes to mind - having watched the film way more times than I read the book - is Anthony Hopkins as Hannibal Lecter in the "Silence of the Lambs". In this case, I still remember the description in the book: six fingers in one hand, dark haired, dark eyed. I don't know what casting director read that description and went "let's cast Anthony Hopkins", but who doesn't think about him when hearing the name "Hannibal Lecter"? Sorry, Thomas Harris, your version is less memorable.

Very few actors aside from these two had the ability to completely make me forget the literary version of their characters and, for sure, there is great proof of their enormous talent.