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Inês N. Almeida

Inês N. Almeida

Um ano de blogue + adaptação de um dos meu livros preferidos/One year of blogging + one of my favourite books got an adaptation

Inês Nobre de Almeida, 28.11.24

20241127_161212.jpgVamos fingir que o palito espetado no queque é uma vela porque devia ser. Eu esqueci-me de comprar. Este meu cantinho da internet fez ontem um ano. Nem acredito que há um ano que venho aqui, uma vez por semana, escrever sobre uma de duas coisas que adoro: escrita ou livros. Às vezes, ambas. 

Ao longo deste ano escrevi sobre muitos livros que adorei, alguns de que gostei, outros que achei que eram mais ou menos e, em raras ocasiões, sobre uns de que não gostei mesmo nada. Se bem me lembro, acho que nesta última categoria houve só dois.

Quando a Maggie Smith (Professora McGonagall nos filmes da saga "Harry Potter" ) faleceu escrevi também brevemente sobre adaptações. Há muitos livros que adorei e que, porque já os li há mais tempo do que tenho este blogue, não vos escrevi sobre eles. Águas passadas, não há nada a fazer, a menos que um dia me apeteça escrever uma publicação apenas sobre os meus livros preferidos (creio que isso me vai demorar algum tempo a pensar). Hoje, porém, essa regra ganha uma pequena excepção que mistura ainda a questão da passagem de uma história da página para o ecrã porque o meu livro preferido de não-ficção narrativa - "Say Nothing" do Patrick Radden Keefe - ganhou na semana passada uma adaptação para mini-série com nove episódios e é IN-CRÍ-VEL. 

"Say Nothing" é um livro sobre a história recente da Irlanda do Norte e do IRA. "Em Dezembro de 1972, Jean McConville, 38 anos, viúva e mãe de dez filhos, foi arrastada para fora do seu apartamento em Belfast por um grupo de pessoas com máscaras enquanto as crianças a tentavam segurar pelas pernas". Os filhos não voltaram a vê-la. Dolours e Marian Price, filhas de um homem que sempre as ensinou a lutar até à morte por uma Irlanda unida e sobrinhas de uma mulher que perdeu a visão e ambas as mãos pela mesma causa, juntam-se ao IRA quando são ainda adolescentes e apesar de serem mulheres e jovens, acabam por ter um papel determinante na organização. É através da vida destas três mulheres que Patrick Radden Keefe conta a trágica história dos conflitos na Irlanda do Norte. 

Estava com imenso medo da adaptação. O primeiro trailer que apareceu, já há uns meses, vinha acompanhado de uma música digna de filme de acção que, convenhamos, não condiz nada com a tragédia que pauta a série do início ao fim. Esta é uma história verídica e alguns dos intervenientes ainda estão vivos e deverão assim permanecer por mais algumas décadas. Seria de esperar que o realizador da série e os argumentistas tivessem cuidado a contar a história. Tiveram. Mais do que isso, acho que a escolha dos actores principais foi perfeita. Todos fizeram um trabalho tremendo e assemelham-se bastante às pessoas que estão a representar. Também eles são da Irlanda do Norte. São demasiado novos para terem vivido aqueles tempos turbulentos, mas os pais e avós viveram-nos e acho que é isso que os leva a ter dado tanto à série. 

Há dois dias li uma entrevista dada pela Lola Petticrew, actriz que protagoniza Dolours Price (personagem principal). Disse que quando acabou de ler o livro estava a chorar tanto que até se esqueceu de o guardar. Deixou-o abandonado na mesa de um café. Não me lembro de ter chorado (até porque tendo a ler em transportes públicos), mas lembro-me de ter tido vontade em vários momentos. Este livro foi prenda de anos de mim para mim própria no meu 30º aniversário. Levei-o comigo quando fui a Itália celebrar não só o meu 30º como o de um amigo também. Vou sempre lembrar-me de estar no comboio de Milão para Veneza quando li uma das cenas mais impactantes deste livro. Fechei-o. Pu-lo de lado. Falei com os meus amigos sobre outra coisa qualquer para me distrair do soco no estômago que tinha sido o que tinha acabado de ler.

Felizmente, ao contrário da Lola Petticrew, não deixei o livro no comboio. Quase um ano depois de o ter lido, em Outubro do ano passado, o autor veio a Londres apresentar a sua obra mais recente. Fui assistir à sessão e levei a minha cópia do "Say Nothing" (publicado em 2018) comigo. Quando chegou o momento de ele assinar autógrafos, toda a gente carregava o livro novo. Eu pousei a minha cópia deste em cima da mesa e disse-lhe "Eu sei que veio apresentar um livro novo e vou lê-lo também, mas espero que não se importe de assinar este. Gostei mesmo muito". O Patrick Radden Keefe sorriu para mim e em tom de irónica gabarolice disse: "Não me importo de todo. Este é realmente muito bom". 

É sim senhor. 

PS: Infelizmente o livro não existe traduzido para Português. A série está na Disney+. Tem o mesmo nome - "Say Nothing" ou "Não Digas Nada". 

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Let's pretend the toothpick on the muffin is actually a candle as it should be. I forgot to buy one. This little corner of the internet that is my blog is one year old. I can't believe I have been coming here once a week to write about one of two things I love: books and writing. Sometimes both. 

Over this year I have written about a lot of books I loved, some that I liked, others so so, and, in rare occasions, a couple I really didn't enjoy. When Maggie Smith (Professor McGonagall) in the Harry Potter films died, I also wrote about adaptations.

There are a lot of books I loved but, because I read them before I had the blog, I did not write about them. Maybe one day I will write about my overall favourite books, although that will take a while and some planning. Today however I am going back in time and talk again about adaptations because my favourite narrative non-fiction book - "Say Nothing" by Patrick Radden Keefe - got an adaptation last week and the miniseries with nine episodes is IN-CRE-DI-BLE!

"Say Nothing" tells the very recent history of Northern Ireland and the IRA. "In December 1972, Jean McConville, 38 year old widow and mother of ten, was dragged out of her flat in Belfast by a group of masked people while her children grabbed on to her legs". They never saw her again. Dolours and Marian Price, daughters of a man who always taught them to fight to the death for a united Ireland and nieces of a woman who lost her sight and both hands to the cause, join the IRA still in their teenage years and despite being young women quickly move up the ranks. It's through telling the stories of these three women that Patrick Radden Keefe also tells the tragic story of The Troubles in Northern Ireland.

I was really scared of this adaptation. When the first trailer popped up, a few months ago, it was accompanied by action-movie music that really doesn't go with the tone of this tragic story. More to the point, it's a real story and some of the people involved are still alive, as they should remain for a few more decades. You would think the director and writers would be careful and respectful telling this story. And they were. More than that, the casting of the actors was perfect. Everyone did such a tremendous job and acted so much like the real people. All the actors are from Northern Ireland as well. They're too young to have lived through those trying times, but their parents and grandparants did.

Two days ago I read an interview given by Lola Petticrew, the actress who palyed Dolours Price (the main character). She said that when she finished reading the book she was crying so hard she actually forgot to put it back in her bag. She ended up leaving it abandoned at a table in some café. I don't remember crying while reading it (also because I usually read in public places) but I did feel like it at times. This book was my gift to myself on my 30th birthday two years ago. I took it with me when I went to Italy to celebrate mine and a friend's 30th as well. I will always remember being on a train from Milan to Venice when I was reading one of the most impactful chapters of this book. I immediately closed it. Put it aside. I talked to my friends about something else to distract myself from the gutpunch that was that chapter.

Fortunately, unlike Lola Petticrew, I did not leave the book on the train. Almost a year after I read it, in October last year, the author came to London to promote his most recent book. I went to the session and took my copy of "Say Nothing". When it came time for him to sign autographs, everyone had the new book. I set my copy of "Say Nothing" on the table and told him: "I know you came to launch a new book, and I will read it, but I hope you don't mind signing this one instead? I really loved it". Patrick Radden Keefe smiled at me and in a tone of ironic smugness said: "Not at all. This is a really good one".

It really is.

 

Queridas personagens: peço desculpa. /Dear characters: I apologize

Inês Nobre de Almeida, 21.11.24

Quem me segue por aqui sabe que é a segunda vez que estou a escrever um primeiro rascunho completo de um romance e desta vez tenho vindo a notar algumas coisas que não me lembro de ter reparado da primeira vez que me lancei a escrever uma história - A escrita flui muito melhor quando as personagens estão a sofrer. É possível que a diferença tenha a ver com o facto de as persoagens na minha primeira história estarem logo no início numa posição de desvantagem. Embora a vida delas piore progressivamente ao longo da história, como, mesmo no princípio, as coisas não iam de vento em popa para eles, não senti o que estou a sentir agora.

Não sei o que isso diz de mim mas: escrever uma vida miserável para as personagens é muito mais fácil do que momentos em que as coisas lhes correm bem. Na história que estou a escrever actualmente, no início, a vida corre muito bem à minha personagem principal - Ela mudou-se para um sítio que adora, tem um trabalho novo de sonho, fez amigos incríveis. Tive uma série de momentos enquanto escrevia esses capítulos iniciais em que pensei que a história não ia a lado nenhum, não havia tensão, não havia conflito. Houve dias em que escrever quinhentas palavras era uma sorte.

Na última semana e meia - mais coisa menos coisa - cheguei por fim ao momento em que as coisas começam a piorar só um bocadinho na vida da minha personagem principal e, meu Deus, a escrita tem fluído muito mais. Em menos de uma semana escrevi quase dez mil palavras. Queridas personagens, peço imensa desculpa. A ficção é feita de uma vida dura para vocês. Mesmo que inicialmente as coisas pareçam todas perfeitas, a ficção tem mais impacto quando há adversidade e conseguimos mostrar como as personagens lidam com ela (quem leu, por exemplo, "A Cicatriz" da Maria Francisca Gama este ano sabe do que estou a falar).  Adversidade traz conflito, traz tensão e desenvolvimento. É através desses momentos que mostramos também os defeitos das personagens - uma vez que nem sempre reagimos da melhor maneira - e isso torna-as mais completas e, espero eu, mais realistas. 

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Those who have been following me here know that I am currently writing a first draft of a new novel. It's the second complete first draft that I am writing and I have been noticing things that I don't remember noticing the first time I did it - writing flows so much better when characters are suffering. It's possible I'm only noticing it now because in the first story I wrote, in the beginning, my main characters were already disadvantaged. Even if their life got progressively worse as the story moved along, things were never good to begin with so I never felt a stark contrast. 

I don't know what this says about me but: writing a miserable life for my characters is a lot easier than writing moments when things go well for them. In the beginning of my current story, everything goes well for my main character. She moves to a city she immediately loves, gets a dream job, makes incredible friends. There were a lot of times while writing that beginning when I felt like the story was going nowhere. There was no tension, no conflict. In some days, writing 500 words was a challenge.

In the last week and a half - more or less - I reached finally the moment where things start to fall apart just a little and, my God, my writing is flowing so much better. In less than a week I wrote almost 10 thousand words. Dear characters, I am sorry. Fiction is created usually from challenging moments for you. Even if iniatially everything is perfect, fiction has much more impact when there's adversity and we can show how characters handle it. Adversity brings conflict, tension, character development. It's through those moments that we can show character flaws - seeing as we don't always react well to adversity - and that makes them more complete and, I hope, more realistic.

 

 

Criar personagens que gerem empatia/On creating relatable characters

Inês Nobre de Almeida, 14.11.24

Em Londres, onde vivo, há uma organização  chamada "London Writer's Salon" que todos os dias, quatro vezes por dia, organiza sessões de uma hora online em que o único objectivo é escrever. A regra naquela hora é "ou escreves, ou não fazes nada" e, mesmo que não estejamos super motivados para escrever, quando a possibilidade de ficarmos só a ver a tinta da parede a lascar se torna real, o teclado chama logo por nós. Desde 2021, quando me mudei para cá, que de vez em quando participo nessas sessões de zoom. Só recentemente descobri que na segunda segunda-feira de cada mês fazem um evento presencial também.

Nesta segunda-feira inscrevi-me e fui. A sessão decorreu como decorreria se tivesse acontecido online, com a excepção de que, ao invés de cinquenta pessoas a olhar para o ecrã de um computador apenas, estivemos uns quinze sentados à volta de longas mesas de madeira. No início das sessões costumamos escrever intenções na conversa associada àquela sessão de zoom. Na segunda-feira fizemo-lo presencialmente. Como se na escola, tivemos de nos voltar para a pessoa sentada ao nosso lado e dizer-lhe: "nestes cinquenta minutos quero escrever...". No meu caso, porque estou outra vez a tentar completar o objectivo das cinquenta mil palavras do National Novel Writing Month (Mês Nacional da Escrita de um Romance), tinha de escrever 1600 palavras. 

Quando estamos a falar directamente com alguém ao invés de a escrever no vácuo de um chat, porém, a coisa acontece de forma diferente: do outro lado chegam perguntas também. A pessoa sentada ao meu lado chamava-se Zoe. Estava a escrever um livro de não-ficção sobre lições que aprendeu ao longo dos últimos vinte anos da sua vida profissional e está quase a chegar ao final. A seguir, chegou aquilo que nunca acontece nas sessões online - ela perguntou-me: "E tu?" 

"O que estou a escrever é ficção embora muito vagamente baseado em experiência também. Vou pegar naquilo que vivi e tornar tudo muito pior porque uma personagem principal tem de sofrer. É isso que torna uma história interessante, não é verdade?". A Zoe concordou. A seguir contei-lhe, em traços gerais, o que vai acontecer na história. Traços gerais porque nem eu tenho ainda traços específicos. Estou a meio de um primeiro rascunho e, embora tenha uma ideia de como quero que a história progrida, às vezes a escrita escapa-nos da mão, as personagens viram desobedientes e decidem diferente do que tínhamos imaginado. Sei bem que isto deve soar a loucura para quem não escreve. Deve ser por isso que tantas pessoas parecem ter detestado o "Bunny" da Mona Awad (sobre o qual escrevi aqui também), que eu adorei. Debruça-se muito sobre esta coisa estranha que é a escrita.

Enquanto falava, a Zoe ia assentindo e no final disse-me apenas: "Soa muito interessante. Relatable". Isso é o mais importante. O que torna um livro cativante é a sua capacidade de criar empatia. Podemos não ter vivido o mesmo que a personagem sobre a qual estamos a ler, mas, se de algum modo conseguímos que quem está a ler se sinta como se estivesse a passar pelo mesmo que a personagem. Talvez sejam os questionamentos, perguntas que já nos fizemos a nós próprios também ou a reacção da personagem em face de um qualquer problema. Na escrita temos de arranjar forma de puxar os cordelinhos da empatia. Só assim uma história deixa marca no leitor. 

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I just recently discovered that the "London Writer's Salon" which every day hosts four writing sessions online also hosts an in-person one, every second monday of the month. This past monday I signed up and went. The session went by as it would have if it had been online, with the exception of having 15 people around long tables instead of 50 just on screens in a zoom session. At the beginning of each session we set intentions and this time we did it too. As if in school, we had to turn to the person sitting next to us and say "in these 50 minutes I want to write...". In my case, because I am once again trying to reach the 50.000 words goal on National Novel Writing Month, I had to write 1600 words. 

When we speak directly to someone instead of writing in the vacuum of a chat, however, it is a bit different: from the other side come questions too. The person sitting next to me was called Zoe. She was writing a non-fiction book on lessons she learned over the last twenty years or so as a professional woman. She is almost done with her draft. Then she asked me: "what about you?".

"I'm writing fiction, although very loosely based on things I have experienced. I will take what I lived and make everything a lot worse. A main character has to suffer. That's what makes a story compelling, right?" Zoe agreed. Afterwards, I told her, in broad strokes, what will happen. I don't really have specifics yet anyway. I'm not even halfway through a first draft e, although I have an idea about how I want the story to progress, sometimes writing breaks free of our grasp, characters become desobedient and decide differently from what we envisioned. I know how crazy this must sound for someone who does not write. It's no wonder "Bunny" by Mona Awad was such a polarising book. I loved it exactly because it dwells on this very weird thing called writing.

As I spoke, Zoe nodded along. In the end she blurted out "that's very interesting, Relatable". That's the most important, right? What makes a book captivating is its ability to create empathy. We may not have lived through the same things the character is going through but, somehow, we can understand what they are feeling. Maybe it's because of the questions the character asks herself, questions we have asked ourselves too. Or maybe it's the way the solve a problem. In writing we have to find ways to pull the strings of empathy. That's the only way to leave a mark in the reader.

 

 

Uma questão simples: E se?/ A simple question: What if?

Inês Nobre de Almeida, 07.11.24

 

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Como prenda de anos para mim própria este ano comprei uma edição ilustrada, absolutamente linda, do "Pet Sematary" (Cemitério de Animais) do Stephen King. É a terceira vez que estou a ler este livro e, mesmo assim, não me lembrava de que começava com uma introdução do autor.

Neste texto que ocupa pouco mais de duas páginas, Stephen King explica que escreveu a obra publicada em 1983 após ter sido convidado a passar um ano a fazer uma espécie de residência literária e a ensinar na universidade onde tinha estudado. Nesse ano, ele, a mulher e os dois filhos (na altura pequenos) arrendaram uma casa numa zona rural do Maine, próxima de uma estrada muito movimentada, por onde passavam sobretudo camiões de transporte de combustíveis. Um vizinho disse-lhe que aquela estrada já tinha sido a ruína de muitos animais de estimação e que, por isso, as crianças que por ali passaram ao longo dos anos, criaram um cemitério para os animais atropelados. Pouco tempo depois de se terem mudado, isso mesmo aconteceu ao gato da sua filha. 

O filho, mais novo que a menina, tinha menos de dois anos e só recentemente tinha aprendido a andar. Ainda assim, já corria por todo o lado. Um dia, estavam a brincar com um papagaio, e o menino decidiu correr com ele para a estrada no momento em que um dos enormes camiões se aproximava. A adrenalina leva a que Stephen King já nem consiga dizer se o seu filho tropeçou ou se, por milagre, conseguiu agarrá-lo e detê-lo antes de uma desgraça acontecer. A questão ficou: E se? E se não tivesse conseguido apanhá-lo? 

Stephen King é o mestre do terror e autor de dezenas de livros que de certeza já causaram pesadelos a muita gente: "Misery", "The Shining", "Cujo". A ele próprio, porém, só este deixa os cabelos eriçados. Neste livro, usou aquilo que quase aconteceu para escrever o impensável. Ao (re)ler esta introdução pus-me a pensar nas coisas que tenho lido, não apenas este ano, mas no geral. Muita literatura surgiu dessa maldita questão que nos coloca numa espécie de universo alternativo que poderia concretizar-se caso as coisas corressem de outra maneira. O que está escrito no "A Cicatriz" da Maria Francisca Gama, uma das minhas leituras mais intensas deste ano, nunca lhe aconteceu, felizmente, mas podia acontecer e é essa possibilidade a pairar como um pêndulo afiado sobre a nossa cabeça que concretiza a ficção, que a torna palpável e, neste caso, como também no do "Pet Sematary", assustadora.

Não pretendo escrever livros assustadores, tal como acho que a Maria Francisca Gama não pretendia. Mas esta pergunta tão simples - "E se?" - é um óptimo motor de tensão em qualquer género de ficção, seja ela livro ou filme. Tem o poder de deixar o leitor agarrado à história, de o deixar nervoso pelas personagens ou ansioso por saber o que lhes vai acontecer. "A vida da personagem A ou B está a correr super bem. E se agora for despedido? E se agora a casa dele arder? E se, a vida que julgava ser de sonho, afinal não for? E se?" Esta há-de ser das perguntas que alguém que escreve mais faz a si próprio. 

Agora, com licença, vou trabalhar numa das minhas respostas. 

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 As a birthday gift to myself this year I bought a beautifully illustration of Stephen King's "Pet Sematary". It is the third time I am reading this book and, yet, I had forgotten it starts with an introduction by the author.

In the text which is just over two pages long, Stephen King explains how he wrote the novel he would publish in 1983 in the late 70s when he was invited to be writer in residence for a year at his alma mater. That year, him, his wife and two children (then very small) rented a house on a rural part of Maine, close to an extremely busy road, where many trucks passed by. A neighbour told him that road had used up so many pets that the children who had lived there over the years had created a cemetery for all the animals which had been run over. Shortly after they had moved there, that's exactly what happened to Stephen King's daughter's cat. 

His son, younger, was less than two years old then, and had only recently learned how to walk. Stil, he was running everywhere. One day, they were playing with a kite and the boy decided to run with it towards the road on the exact moment a truck was driving by. Such was the adrenaline he must have felt that Stephen King can no longer say with certainty if he managed to grab the boy or if he fell on his own. Either way, the question lingered: What if? What if he couldn't stop him?

Stephen King is the master of horror, author of dozens of nightmare-inducing books such as "Misery", "The Shining" or "Cujo". When it comes to him, though, only this book scares him. In "Pet Sematary" he used what almost happened to write the unthinkable. while (re)reading this introduction, I thought about the books I have been reading, not only this year, but in general. A lot of literature has come out of that damn question which sort of takes us to an alternate universe which could exist if things went a different direction.

I don't intend to write scary books, but this simple question - what if? - is an amazing way to create tension in any sort of fiction, whether it be a book or a film. It has the power to grab the reader, to make the reader nervous for the characters or excited to know what will happen to them. This is probably one of the questions someone who writes asks him or herself the most. Now, if you'll excuse me, I will work on one of my answers.