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Inês N. Almeida

Inês N. Almeida

Review "Os Periquitos Somos Nós"

Inês Nobre de Almeida, 11.12.25

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3.5 Se mais nada houvesse a dizer sobre o Alex Couto, seria sempre de notar como ele nos apresenta o mundo que conhecemos de uma forma diferente do habitual, com uma linguagem peculiar e um estilo que considero mesmo ser só dele. Há uma frescura na forma como escreve, o equilíbrio perfeito entre despreocupada e muito cautelosa, pensada. No entanto, muito mais há a dizer sobre o Alex e, neste caso, sobre a ideia que ele explora com o seu mais recente livro. 

Há uma frase na página 149, já a chegar ao último terço  que, para mim, o resume na perfeição: "Como vocês agora sabem, se calhar até já sabiam (ao contrário de mim), eles estavam errados - a arte não era algo superficial, muito menos acessório. Era essencial para conseguirmos comentar o mundo em que vivíamos". Não é para isso também que se escrevem livros? Para olharmos de diferentes maneiras para o mundo em que vivemos (ou, se não gostarmos assim tanto do que vemos, para criar outros? Fantasia também existe!). 

"Os Periquitos Somos Nós" (que título espectacular) conta a história de um presidente da câmara pequenino com um voz pequenino de voz aguda que quer vender Lisboa aos super ricos. "O seu sonho são unicórnios e estacionamento privado em Campo de Ourique". É neste cenário familiar mais àqueles que vivem em Lisboa (mas, convenhamos, nada estranho para quem quer que preste um mínimo de atenção) que surge um novo "reality show" chamado "Capital da Arte" para eleger um artista e premiá-lo com um dos ateliês dos Coruchéus em Alvalade. Este programa esconde, porém, uma realidade mais sinistra que envolve especulação imobiliária e perda da essência artística.

Já disse e volto a dizer: é sempre incrível voltar ao mundo visto pelos olhos do Alex Couto uma vez que é sempre uma visão muito peculiar. No entanto, ficou-me a faltar uma coisa e essa é a principal razão pela qual não dei uma cotação mais elevada a este livro: desenvolvimento das personagens. Se aquele "reality show" existisse de facto duas coisas me fariam vê-lo: a curiosidade pelas obras criadas a cada episódio, sim, mas também os concorrentes. Para querer saber quem vence, para me importar com isso, tenho de me importar com os concorrentes. Para tal, tenho de conhecê-los. Cheguei ao fim dos episódios, e o que sei sobre todos eles é muito superficial. Fiquei com falta de saber mais.

Sei que chegue sobre quem vence e o vencedor ou vencedora deste "reality show" ajuda o livro a passar a mensagem que quer passar desde o início. Não vou entrar em mais detalhes para não fazer monumentais "spoilers", não é para isso que aqui estou. Digo-vos em vez disso que se alguma vez fui ao Jardim dos Coruchéus não me lembro e, se calhar, terá de ser ponto de passagem de uma das minhas próximas visitas a Lisboa para ver ao vivo o cenário deste livro muito peculiar, mas com passagens que nos fazem ficar com os pés bem assentes na terra e a olhar para o que se passa em nosso redor.

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3.5 If nothing else could be said about Alex Couto I'd always like to point out how he presents the world we know in such a peculiar way, with a sometimes strange language and a style I find really unique. There's a freshness to the way he writes, a perfect balance between care-free and very meticulous, thought out. Much more could be said about Alex and the idea he explores in his most recent book.

There's a sentence in page 149, when we're getting into the last third of the book, that, for me, summarizes it perfectly: "Like you now know, maybe you even knew it already (unlike me), they were wrong - art isn't something superficial, much less accessory. It was essential for us to be able to comment on the world we live in". Isn'tthat why we also write? To look in all sorts of different ways at the world we live in (and, if we don't like it all that much, to create other worlds? Fantasy exists too).

This new books tells the story of a Mayor who is tiny and has a squeaky voice who wants to sell Lisbon to the super-rich. "His dream is unicorns and private parking in Campo de Ourique". It's in this setting, familiar especially to those who live in Lisbon (but, let's face it, not unfamiliar to any portuguese paying the slightest bit of attention) that a reality show is created. It's called "Art Capital" and aims at electing an artists and giving him an atelier as a prize, in Coruchéus, Alvalade. This show hides, however, a darker reality involving housing speculation and loss of an artist's essence.

I said it and I'll say it again: it's always amazing coming back to see the world through Alex Couto's eyes, as it's always a very peculiar vision. Still, I felt like I needed something else from this book and that is the main reason I didn't rate it higher: character development. If that reality show existed, two things would me make watch it: curiosity for the artwork created in each episode, sure, but also the contestants. To want to know who wins, I have to care about that. I have to care about the contestants. And for that, I have to know them. I got to the end of all episodes and what I know about the contestants it's very superficial. I needed to know more. I know enough about the winner for the book to make the point it wants to make from the beginning. Next time I'm in Lisbon I'll go to Coruchéus Garden because if I ever went there, I don't remember. I want to experience the main scenary for this very particular book with some passages which make us get our feet back on the ground and look at what's going on around us.