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Inês N. Almeida

Inês N. Almeida

Primeiro do ano - "Mulheres Invisíveis"/ First book of the year - "Invisible Women"

Inês Nobre de Almeida, 16.01.25

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Está terminada a primeira leitura de 2025. Este já tinha começado no final do ano passado. Aprendi imenso com este livro. Também revirei muito os olhos e apeteceu-me atirar com ele à cabeça metafórica do patriarcado. Vivemos num mundo feito para homens e mais do que injusto e desconfortável, isso pode ser até perigoso. É isso mesmo que este livro ensina. 

A sinopse: "Imagina um mundo em que... o teu telemóvel é demasiado grande para a tua mão, o teu médico prescreve medicamentos errados para o teu corpo, que num acidente de carro tens mais 47% de probabilidade de ser ferida com gravidade. Se algumas destas coisas soam familiares, é provável que sejas uma mulher. Desde políticas governamentais e investigação médica, a tecnologia ou aos locais de trabalho e aos media, "Mulheres Invisíveis" mostra como num mundo construído em grande parte para e pelos homens, estamos sistematicamente a ignorar metade da população, muitas vezes, com consequências desastrosas".

Fiquei exausta  de frustração a ler este livro. Revi-me em quase todos os capítulos e mesmo aqueles com os quais não me revejo - os da maternidade uma vez que não sou mãe, ou os que têm a ver com a segurança rodoviária pois não conduzo - deixaram um gosto amargo na minha garganta. Mais uma vez - que frustração ler este livro.

Podemos começar pelas coisas mais simples: Há pouco mais de um ano, quando comprei o telemóvel que tenho agora, andei a fazer pesquisas para ver o que era melhor (dentro do adequado ao meu bolso) e decidi comprar um certo modelo. Fui ao centro comercial sabendo o que queria. Tinha as funcionalidades que precisava, durabilidade da bateria, etc. Cheguei à loja, procurei o telemóvel que tinha escolhido e peguei nele. Era enorme na minha mão. Seria enorme também numa mala mais pequena que usasse, por exemplo, para sair. Acabei por escolher outro. A escolha de um telemóvel não é sequer problema de primeiro mundo, não é um problema, mas foi isto que aconteceu da última vez que tive de optar.  

Mas este livro fala de outras coisas. Logo no início, por exemplo, Caroline Criado Perez fala de algo que é "aparentemente neutro" no impacto que tem nos homens e mulheres. Depois explica porque é que isso não é verdade. Neste caso, ela estava a falar da limpeza da neve nas estradas da Suécia, um país que tem fama de ser igualitário. Na limpeza da neve eram sistematicamente priorizadas algumas estradas que veio a perceber-se que correspodiam tendencialmente aos padrões de viagem dos homens já que, estatisticamente, os homens conduzem mais do que as mulheres naquele país. Vias pedonais, nas quais, por exemplo, as mulheres empurram carrinhos de bebé, são deixadas para segundo plano.

Outra coisa que foi difícil de engolir - foi preciso a Sheryl Samberg, agora COO da Meta, chamar a atenção da Google para o facto de não haver lugares de estacionamento reservados próximos da entrada para mulheres grávidas quando lá trabalhava para uma gigante tecnológica como a Google perceber que isso era uma necessidade. A GOOGLE! Desculpem, não entendo. E deram ouvidos à Sheryl Samberg porque era uma chefia. E as pessoas que engravidaram antes dela? Pois. 

Algo em que nunca tinha pensado também: estamos em 2025, este livro só tem cinco anos. Como é que, então, no final da década passada os uniformes para a Polícia e militares continuam a ser "neutros"? As mulheres têm seios que, por isso, são constantemente apertados por todo o equipamento protector que têm de utilizar uma vez que nada está adaptado ao corpo feminino. (* grito 17988796757* de frustração). Neste caso é particularmente grave. Estamos a falar de questões de segurança, potencialmente casos de vida ou morte. Temos de fazer melhor. O mesmo pode ser dito em relação ao sem número de medicações que são testadas apenas em homens porque "ah e tal as mulheres têm flutuações hormonais e um corpo mais imprevisível". Eu não sou cientista, mas diria que esse é o argumento exactamente para os medicamentos serem estudados em mulheres e não em homens, mas pronto, é o que temos. 

Para finalizar, este livro também aborda algo que me irrita imenso que são as percepções em relação ao que um homem e uma mulher devem ser. a Caroline Criado Perez escreveu sobre a primeira eleição do Donald Trump em 2016 - e a vitória sobre Hillary Clinton - , mas o mesmo serviria para este segundo mandato: "Ser a primeira mulher a ocupar o cargo mais poderoso do mundo requer um nível extraordinário de ambição. Mas pode dizer-se também que é bastante ambicioso para um homem de negócios falhado, celebridade da TV sem experiência política candidatar-se ao cargo político mais de topo no mundo - mas a ambição não é uma palavra suja no que toca a Donald Trump". Porquê? Porque os homens podem e devem ser ambiciosos, podem e devem ser agressivos, podem e devem ser tudo o que eles quiserem. As mulheres ambiciosas são mal vistas. As mulheres assertivas são logo "agressivas" por defenderem uma ideia, por expressarem uma opinião. Ai de nós. Mulher deve ser dócil, deve ser calma, deve ser ponderada, tudo aquilo que não é exigido aos homens. 

Com todo o respeito: que se lixem essas ideias antiquadas (e olhem que escrevi "que se lixem" mas até queria escrever outra coisa) . Precisamos de ser melhores do que isto. 

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I finished my first book of 2025. I had started it at the end of last year. I learned a lot with it. I also rolled my eyes a lot and felt like throwing the book at the metaphorical head of the patriarchy. We live in a world made for men and more than unjust and uncomfortable, it can turn dangerous. That's exactly what the book teaches us.

The synopsis: "Imagine a world where... Your phone is too big for your hand, your doctor prescribes a drug that is wrong for your body. In a car accident, you are 47% more likely to be seriously injured. If this sounds familiar, chances are that you're a woman. From government policy and medical research, to technology, workplaces and the media, Invisible Women reveals how, in a world largely built for and by men, we are systematically ignoring half the population, othen with disastrous consequences".

I was exhausted with frustration reading this book. I saw myself in almost all of the chapters and even those in which I don't - the ones regarding motherhood because I am not a mother, or the ones concerning road safety because I do not drive - I was left with a bitter taste in my mouth. Once again - it was such a frustrating read.

Let's start simple: just over a year ago, when I bought my phone, I researched to see what worked best for me (and was accessible price-wise). I decided for a specific one. I went to a shop knowing what I wanted. It had the specs I needed. I get there, I looked for the phone I had chosen and I held it. It was huge in my hand. It would also be huge in a smalled handbag. I ended up picking a different one. But choosing a phone is not even a first world problem, it isn't a problem at all. It was just something I noticed.

But this book mentions other things too. For example, right at the beginning, Caroline Criado Perez mentions something "apparently neutral" genderwise. Then, she goes on to explai why it isn't. She was talking about snow-cleaning patterns on the roads in Swenden, a country known for being aware of gender equality issues. When it came to snow cleaning, the roads which were prioritized correpsonded to male travel patterns given that, statistically, swedish men drive more than women. Pedestrian walkways in which women might push prams are not prioritized.

Another hard to swallow truth - it took Sheryl Samberg, now COO of Meta, call out the fact that Google did not have priority parking spaces for pregnant women closer to the entrance when she worked there (and was heavily pregnant) for them to realize that was a necessity. GOOGLE!! I am sorry, I don't get it. Also, they only listened to Sheryl Samberg because she held a senior role. What about all the pregnant women before her? Exactly. 

Something I had never thought about: It's 2025. This book is only five years old. How is it that at the end of the last decade Police and Military uniforms were still "neutral"? Women have breasts that end up being squashed by protective equipment which is too tight because it is not adapted to the female body. (* scream number 1765689 in frustration*). This case is particularly serious. We are talking safety here, potentially cases of life and death. We need to do better. The same can be said about medication tested only in men because "oh, women have hormone fluctuations, it's an unpredictable body". I am no scientist, but I'd say that should be an argument in favour of testing things on women and not on men, but here we are.

To conclude, this book also talks about something I really hate which are the perceptions regarding what men and women should be. Caroline Criado Perez wrote about the first tie Donald Trump got elected in 2016 and his victory over Hillary Clinton, but she could have been writing about his second election as well: "Being the first woman to occupy the most powerful role in the world does take an extraordinary level of ambition. But you could also argue that it's fairly ambitious for a failed businessman and TV celebrity who has no prior political experience to run for the top political job in the world - and yet ambition is not a dirty word when it comes to Trump".

Why? Because men can e should be ambitious, they can and should be aggressive, they can be whatever they want. Women who are ambitious are frowned upon. Assertive women are immediately labeled as "aggressive" if they defend an idea or express an opinion. How do we dare? A woman should be docile, calm, everything that isn't required of men.  

With all the respect: screw those antiquated ideas (and let me tell you: I wrote "screw" but I definitely wanted to write another word). We need to do better.

 

 

Esquecimentos e uma queixa em relação ao Goodreads/Forgetfulness and a complaint regarding Goodreads

Inês Nobre de Almeida, 19.12.24

 

Screenshot_20241218_205115_Goodreads.jpgSempre que vou viajar esqueço-me de alguma coisa. Nunca é nada de muito importante ou insubstituível. Por norma são objetos simples que facilmente consigo arranjar para onde quer que vá. 

Voei de Londres para Lisboa no sábado passado e só quando cá cheguei é que me apercebi do que faltava desta vez - uma mochila ou um saco de pano com espaço para transportar um livro e/ou um caderno (por norma ando com ambos) para onde quer que vá. Isso significa que enquanto por cá estiver só vou ler enquanto estiver em casa, provavelmente à noite. Não sei se vou acabar ainda este ano o livro que estou a ler agora, "Mulheres Invisíveis", um livro de não-ficção sobre, por exemplo, como uma coisa aparentemente neutra como a limpeza da neve nas estradas na Suécia pode ser sexista (falamos mais sobre isto quando eu acabar de ler o livro e vier aqui fazer uma análise mais completa). 

Seja como for, o Goodreads decidiu já fechar a loja e apresentar-me o meu ano em números. Este ano (até agora) li 31 livros, 10.406 páginas. "The Shards" do Bret Easton Ellis foi o livro de maior dimensão que li este ano, "Small Things Like These" da Claire Keegan foi o mais pequeno. De todos os livros que li, o que está melhor cotado é "Demon Copperhead" da Barbara Kingsolver (percebo bem porquê). 

Este foi um ano de leituras incríveis. Começou com o "The Wager" do David Grann, a seguir li o "Bunny" da Mona Awad, também li o "Ketchup Clouds" que encontrei numa loja de caridade em segunda mão por acaso quase três anos depois de uma professora me ter falado dele. Pelo meio do ano li alguns dos meus preferidos - "Yellowface" (A Impostora), "A Cicatriz" (ainda não recuperei desta leitura), "A História de Roma", "Teoria das Catástrofes Elementares". Enfim. Hei-de fazer uma publicação sobre as minhas leituras preferidas deste ano (e será difícil porque li imensos livros incríveis). Por agora só quero dizer que não me agrada que o Goodreads, tal como o Spotify, tenha a mania de fazer este balanço do ano quando ainda vamos a meio de Dezembro. Muito se pode ler em 15 dias. Ou podia, se não me tivesse esquecido do meu saco de pano em Londres.

Apesar de tudo, a pior das aplicações no que toca aos balanços do ano ainda é o Duolingo. Além de me dizer que fiz 281 lições de espanhol e que estou no top 10% de pessoas mais dedicadas, fez questão de me relembrar que cometi 640 erros.

Não se faz. 

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Every time I travel, I forget something. It's never something really important or irreplaceable. Usually it's things I can easily find wherever I go. I flew from London to Lisbon on Saturday and only when I arrived did I notice what I forgot this time - a backpack or a tote bag with enough space to carry a book and/or a notebook (I usually carry both) wherever I go. That means while I'm here I will only read when at home, most likely at night. I am not sure I will finish this year the book I am currently reading, "Invisible Women - Exposing data bias in a world designed for men", a non-fiction book about how, for example, something apparently neutral like snowcleaning in the winter in Sweden can be sexist (I'll talk more about that when I'm done with the book and I come back here to write about it). 

Be as it may, Goodread has decided to close up shop early and show me my year in numbers now. This year, so far, I read 31 books, 10.406 pages.  "The Shards" by Bret Easton Ellis was the longes book I read, "Small Things Like These" by Claire Keegan was the shortest. Of all the books I read, "Demon Copperhead" by Barbara Kingsolver is the one with the best overall rating on Goodreads (and I can understand why).

This was a year of amazing reads. I started out with "The Wager" by David Grann, followed by  "Bunny" by Mona Awad. I have also read "Ketchup Clouds" which I found in a charity shop by chance almost three years after a professor had talked about it. Halfway through the year I listened to "Yellowface", read "A Cicatriz" ("The Scar") from which I have yet to recover, "A História de Roma" ("The History of Roma") and "Teoria das Catástrofes Elementares" by Rita Canas Mendes. 

I will eventually write a post about my favourite books of this year (which will be difficult as I read amazing things in 2024). For now I only wish to say that I don't like that Goodreads, just like Spotify, does its wrapped while we are in mid-December still. A lot can be read in two weeks. Or could, hadn't I forgotten my tote bag in London. Despite all of this, I have come to realize the worst app when it comes to wrapping the year is Duolingo. Aside from telling me I did 281 Spanish lessons and that I am in the top 10% most dedicated people, it also made a point of reminding me that I made 640 mistakes. 

Not cool. 

 

Review: "Teoria das Catástrofes Elementares"

Inês Nobre de Almeida, 10.10.24

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Este livro agarra-nos desde o primeiro capítulo com uma história sobre o atropelamento da mãe da personagem principal. Desde logo, Rita Canas Mendes demonstra o que é, para mim, o maior feito desta obra: cada capítulo podia ser um livro inteiro. O leitor é de imediato transportado para aquelas histórias e queremos saber mais sobre o que está a acontecer a cada personagem.

No entanto, foi o segundo capítulo que me fez não conseguir parar de ler (a não ser quando tive de interromper para ler outro livro por causa de trabalho - daí ter demorado um bocadinho mais a partilhar aqui a review).

Nesse segundo capítulo, a personagem principal está com o pai no Registo Civil. Já tiraram uma senha e estão à espera de ser chamados. Quem nunca esteve numa situação dessas de espera ansiosa em que o tempo parece não querer avançar? A forma como a Rita Canas Mendes integra a contagem do número das senhas que vão sendo chamadas com as divagações do pai demonstra uma mestria do uso da palavra que é invejável. Exactamente pelo modo como o capítulo está escrito, de imediato, somos transportados para aquela sala, para aquela espera, e nos revemos no que está a acontecer. 

Mas este é só o princípio de uma obra muito mais abrangente. "Teoria das Catástrofes Elementares" aborda temas como relações familiares complexas, parentalidade, colonialismo e relações históricas com África. Sobretudo, um pouco ao longo de todos os capítulos, este livro fala do que é ser mulher nos anos 80 e 90 mas também ainda hoje em dia. Abusos nas mais diversas relações. No sistema.

Um dos capítulos mais poderosos é um autêntico grito do Ipiranga. Não posso escrevê-lo aqui todo, mas deixo um cheirinho do que é este capítulo XXXI: "Não percebo como é que não está tudo aos gritos na rua. Eu estou a passar-me com este estado de coisas... Na sexta-feira, na manifestação, a dada altura cantava-se 'mulheres em luta, contra os filhos da puta'. Mas eu não tenho nada contra as putas, o problema são os filhos, os que se tornam agressores. Onde é que estão os pais nessa história? - Foram eles que os ensinaram? Como é que alguém passa de criança a criminoso? Como é que uma rapariga se defende de uma alcateia? Porque a alcateia está a toda a volta - os agressores, os polícias, os juízes, os pais e, às vezes, também as mães. Todos achando-se no direito de subjugar o outro, ou melhor, a outra. Não importa a idade, a beleza, o estatuto social. Ser-se mulher, já para não falar de uma que pertença a uma minoria, é estar-se à mercê. Podem ser virgens em comunidades religiosas ou putas em bordéis, a opressão está sempre lá. Eu sei que a mãe está um bocado chocada por me ouvir falar assim, mas não aguento mais. A revolta com este sistema é tão grande, tão grande. Nós vivemos com isto tudo, carregamos os traumas todos os dias e ainda temos que aturar piropos nojentos na rua. Agora que finalmente estamos a falar disto, com o MeToo, o foco não deve estar no Me, e sim no Too. O problema não é só meu ou só da mãe, é de todas. O problema é de todos, e em todo o lado, no mundo inteiro. A mãe tem de vir marchar comigo no dia 8 de março. Temos de fazer barulho. Isto não pode continuar assim. Estou farta, farta, farta."

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This book grabs our attention from chapter one with a story about the main character's mother being run over. From that moment on, Rita Canas Mendes shows what is, for me, the best thing about this book: each chapter could be its own entire book. The reader is immediately transported to those stories and we want to know more about what happens to each character. But it was chapter two which made me not want to stop reading (unless I had to interrupt to read something for work).

In that second chapter, the main character is with her father in A Civil Registry Office. They have a number and are waiting to be called. Who among us has never been in those situations when the more you want the time to pass, the more it seems to drag? The way Rita Canas Mendes weaves the counting of the numbers as people are being called with the father's rambling shows a mastery of the written word which is enviable.

But this is only the beginning of a much larger work of fiction. "Teoria das Catástrofes Elementares" goes onto themes such as complex family dynamics, parenthood, colonialism and historical ties to Africa. Most of all, throughout all the chapters, this book talks about what it's like being a woman in the 80s and 90s as well as today showcasing several types of abuse in different relationships and the system itself.

Written only in Portuguese for now, I do hope this book gets translated to more languages so other people can experience it. I believe every woman in the world will relate to even if just one of the situations portrayed in the book and that is also why it's so important.

Review "Rouge"

Inês Nobre de Almeida, 19.09.24

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É tão bom voltar a escrever-vos sobre um livro que adorei! "Rouge" é uma história que mistura contos de fadas, padrões irreais de beleza e obsessão. Agarra-nos logo desde o início. 

A sinopse: Desde que se lembra, Belle é obcecada com a sua face e vídeos sobre cuidados com a pele. Quando a sua mãe - com quem mantém uma relação distante - morre misteriosamente, Belle volta à Califórnia para lidar com as dívidas da mãe ao mesmo tempo que tenta responder às dúvidas que tem em relação à morte dela. Tudo muda quando uma mulher estranha vestida de vermelho aparece no funeral oferecendo uma pista misteriosa sobre o que poderá ter acontecido à mãe, seguindo-se um vídeo sobre uma experiência transformadora num spa. Com a ajuda de um par de sapatos vermelho, Belle é puxada para "La Maison Méduse", o mesmo spa a que a sua mãe era devota. É lá que Belle descobre os terríveis segredos por de trás da sua obsessão com o espelho.

Embora esteja longe de ser um verdadeiro conto de fadas, assim que começamos a ler é possível ver as referências a várias das histórias que pautam a nossa infância e que - intencionalmente ou não - plantam ideias sobre padrões de beleza. Pensei logo na clássica expressão "espelho meu, espelho meu". Mesmo não estando escrita em parte nenhuma deste romance, é possível ver como a personagem principal é obcecada com o que vê ao espelho. Belle vive para combater qualquer marca na pele - rugas, manchas. 

Porém, à medida que vai fazendo os tratamentos oferecidos pela "Maison Méduse", vai-se apercebendo de que perde mais do que aquilo que lhe estraga a pele - tal como tinha acontecido à mãe. Para evitar estragar o livro a quem possa querer lê-lo direi apenas que memória é também um dos grandes temas deste romance, para além de uma dose a pender para o pouco saudável de obsessão com o Tom Cruise.  

Não mergulhei neste livro às escuras. Como escrevi na publicação há um par de semanas, tive o imenso privilégio de ouvir a Mona Awad falar sobre ele. É baseado em parte na sua própria realidade uma vez que já viveu algum tempo obcecada com vídeos sobre rotinas de beleza. Mesmo tendo algumas pistas sobre a história, ela foi dar a lugares que eu nunca esperava.

Recomendo a quem gostar de um bom mistério e de ser imerso num cenário desconfortável. A maioria do livro desenrola-se como um muito longo pesadelo - nem sempre é fácil perceber o que está a acontecer de facto ou o que está apenas a ser imaginado pela Belle (mais uma vez, uma referência a um conto de fadas). 

Por fim, é sempre um gosto regressar às praias da Califórnia, nem que seja através da leitura. 

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It's amazing coming back here to write about a book I loved! "Rouge" is a story which mixes fairytales, unrealistic beauty standards and obsession. It grabbed my attention right from the start. 

The synopsis: For as long as she can remember, Belle has been obsessed with her skin and skincare videos. When her estranged mother Noelle mysteriously dies, Belle finds herself back in California, dealing with her mother's debts and grappling with lingering questions about her death. The stakes escalate when a strange woman in red appears at the funeral, offering a tantalising clue about her mother's demise, followed by a cryptic video about a transformative spa experience. With the help of a pair of red shoes, Belle is lured into the barbed embrace of "La Maison de Méduse", the same lavish, culty spa to which her mother was devoted. There, Belle discovers the frightening secrete behind her (and her mother's) obsession with the mirror - and the great shimmering depths that lurk on the other side of the glass.

Although it's far from the typical fairytale, as soon as we begin reading "Rouge" there are obvious references to some of the classic stories from our childhood which - intentionally or not - plant ideas regarding beauty patterns. I immediately thought about the expression "mirror mirror on the wall" - even if it never was actually in the story. It's obvious from the start that the main character is obsessed with what she sees in the mirror. Belle lives to fight against anything that tarnishes her skin - wrinkles, freckles, spots. 

But as she continues her treatments at "La Maison de Méduse" Belle realises she is losing more than what is ruining her skin. To avoid spoilers, I will say only that memory is also a huge theme in this novel - as well as a not-so-healthy obsession with Tom Cruise. 

I didn't go into this book blindly. As I explained a few weeks ago, I had the imense pleasure of listening to Mona Awad talk about it. The novel is slightly based on her own experience given that she was also once obsessed with skincare videos. Although I had these clues to the story, it ended up taking very unexpected turns.

I recommend it to anyone who enjoys a good mystery set in an uncomfortable setting. Most of the book unravels like a very long nightmare - it's not always easy to perceive what is actually happening and what Belle is imagining (Belle, once again, a reference to a fairytale). 

To conclude, I'll say that it's always a pleasure to go back to the beaches in California, even if only by reading.

 

 

Há 51 anos não escreveria neste blogue/ 51 years ago I could never write this blog

Inês Nobre de Almeida, 25.04.24

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Hoje, uma pequena distopia, realidade alternativa. Tenham paciência. Imaginemos: vinte e quatro horas do dia 25 de Abril de 1974 passam e nada acontece. Marcelo Caetano continua no poder. Seguem-se a ele uma série de outros ditadores e nada muda realmente no país. Como é óbvio, a expressão "direitos das mulheres" não existe na mente de ninguém, nem da das próprias mulheres que, na sua maioria, não se atreveriam a lutar por eles.

Imaginando que nesta realidade alternativa a tecnologia também evoluísse e a internet existisse nesse Portugal alternativo em 2024, eu, como mulher, não teria direito a aceder a ela de certeza, muito menos a criar nela um cantinho para me expressar sem autorização de um homem, fosse pai ou marido. 

Quem me conhece, agora estará a ler estas palavras e a pensar "Oh, mas tu nem sequer vives em Portugal há dez anos" e isso é verdade. Mas se o 25 de Abril nunca tivesse acontecido, eu também não poderia sair do país. Não poderia escrever o que queria ou ler, porque havia censura. Nessa realidade alternativa em que em 2024 continuávamos a viver em ditadura, estaria condenada a ser dona de casa (coisa para a qual não tenho absolutamente jeitinho nenhum, porque não, não é inato, e não, não é algo que as mulheres fazem melhor só porque sim). Se trabalhasse, havia certamente profissões que me estavam vedadas e a decisão do que poderia fazer não seria só minha. 

Ainda bem que o 25 de Abril aconteceu e, visto que um dos direitos que me deu - mesmo que indirectamente - foi o de ter este  blogue, vale a pena relembrar todos os outros, tão ou mais importantes: só a partir de 1976 os maridos deixaram de ter o direito de abrir a correspondência da mulher. Ganhámos direito à privacidade. Só em 1978 as mulheres casadas deixaram de ter estatuto de dependência do marido. O "governo doméstico" deixou de ser um "direito próprio" da mulher (Graças a Deus. Credo). A mulher ganhou poder de decisão pleno em igualdade de circunstâncias com o marido.

Só em 1974 as mulheres puderam ser diplomatas ou juízas. Só em 1978 deixarm de precisar de autorização do marido para ser comerciante. Até 1974, as mulheres não podiam votar. 

Em 2024, assinalam-se 50 anos de conquistas e, a julgar pelo que se lê nas notícias, é assustador que este espaço de tempo tão curto tenha sido suficiente para haver no país quem queira dar tantos passos atrás. Vale a pena imortalizar por escrito a liberdade que este dia simboliza.

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For my English speaking friends, today's post requires some context. In the early hours of the 25th of April 1974, 50 years ago, there was a military coup that took down a dictatorship which had been in place since 1926. Even being a military coup, it went down in history as one of the less bloody ones. On the day, women handed out red carnations on the street and the flower became a symbol of the revolution. 

So, to comemorate this tremendous thing that happened 50 years ago in my home country, I bring you a small dystopia. Bear with me. Imagine: The 24-hours of April 25th 1974 come and go and nothing happens. Marcelo Caetano, the dictator, is still in power and, when he dies, some other dictator follows him. Nothing changes in the country. Obviously, in this context, there's no such thing as "women's rights". Even if technology evolved as it did in reality, in this alternate reality in which the dictatorship is still in place, women would not have access to it, even less to creating a little corner to express themselves.

Those who know me now are thinking "you haven't even lived in Portugal for ten years" and that's true. But if that 25th of April revolution hadn't happened, I couldn't leave the country. I could never move abroad. I couldn't read or write what I wanted, even if I knew how to, because there was censorship, I was doomed to being someone's housewife (something I would be awful at). If I did get to have a job, there were certain professions I could never access.

It's amazing that that revolution happened and, since one of the rights it gave me - even if inderectly - was to have this blog, it's worth reminding all of the others, just as important or even more. Only after 1976, men stopped having the right to open their wife's correspondence. We gained the right to privacy. Only in 1978 married women stopped being legally dependent on their husband. Governing the house was no longer a legal duty of women (Thank God). Women gained full decision power in equality with their husbands when married.

Also, only in 1974 women were able to become diplomats or judges. Only in 1978 stopped requiring their husband's authorization to work retail. Until 1974, women could not vote.

In 2024 we celebrate 50 years of all of these amazing rights earned by women and, judging by what I read on the news, it's scary to think that such a short period of time was enough to make some people in the country take many, many steps back. That's what makes me want to immortalize in writing the freedom this day represents.

 

 

 

 

 

Nervosismo bom e provas de fogo (Good nervewrecking and challenging experiences)

Inês Nobre de Almeida, 10.02.24

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Escrevo-vos excepcionalmente ao sábado (novo post sairá na quinta-feira na mesma) para partilhar o que fiz hoje pela primeira vez: falei em público sobre o "50 Women in Technology". Não foi exactamente uma apresentação do livro, não era esse o propósito do evento, mas esta manhã estive na Imperial College London a com Megan Hale e Anais Engelmann que entrevistei para o livro a falar para 60 jovens do ensino secundário que pretendem seguir uma carreira nas engenharias ou algo ligado à tecnologia.

Nunca tinha estado numa plataforma (não exactamente um palco) a falar para sessenta pessoas com os olhos postos em mim. O coração parecia que ia saltar pela boca e cair-me aos pés. Felizmente, estava ao lado de duas pessoas muito habituadas a falar em público ao contrário de mim. Ser a primeira a ter de falar não ajudou. No entanto, quando a pessoa a cargo de nos apresentar acabou de o fazer e eu tive de falar sobre como comecei a pesquisar para o "50 Women e Technology" e porque é que é importante darmos destaque aos feitos das mulheres no meio científico, muitos ainda invisíveis, as palavras saíram sem hesitação.

Nem nos trabalhos que fazia e tinha de apresentar na escola me sentia tão à vontade. Nem na peça de teatro em que actuei no décimo segundo ano rodeada de amigos com os quais ensaei durante meses. Talvez a idade ajude, ou ser um trabalho que fiz de raiz. Parte de mim esperava que a idade e ser mais auto-consciente ia exacerbar os nervos. Tudo acabou por correr bem. Enquanto alguém que um dia espera vir a lançar um livro mesmo só seu, de preferência ficção - pelo menos um dos dois que estou a escrever neste momento - ser capaz de enfrentar este medo e subir àquela plataforma foi um momento determinante. Sim, foi aterrador, mas dei a oportunidade e descobri que fui capaz. E agora mal posso esperar por fazê-lo outra vez. O que quero dizer no fundo é: arrisquem a fazer aquilo que vos deixa desconfortáveis! Nunca se sabe o que podem descobrir sobre vocês mesmos. 

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I am writing to you on a Saturday, exceptionally, (regular new post will be here on Thursday as usual) to share with you what I did today for the first time: I spoke in public about "50 Women in Technology". It wasn't a launch, not even an event focused on the book. Still, this morning I was at Imperial College London with Megan Hale and Anais Engelmann, who I interviewed for the book, talking to 60 secondary school students who want to follow a career in engineering or in technology.

I had never been on a platform (it wasn't exactly a stage) talking to so much people with their eyes on me. My heart felt as if it was going to fall out of my mouth at my feet. Fortunately, I was next to two people used to speaking in public, unlike me. Being the first one to have to speak didn't help. Yet, when the person who introduced us finished speaking, I talked about how it was like to research and write "50 Women in Technology" and why it's important to highlight the work of women in scientific fields, a lot of it still barely visible. The words came out with no hesitation.

It wasn't that way when I had to present assignments at school, nor when I had a part in the play we did in 12th grade, in the theatre group, even though I was surrounded by friends with whom I had rehearsed for months. Maybe age helps. Or the fact it was something I made from scratch. Part of me thought age and self-consciousness would exacerbate my nerves. All went well. As someone who one day hopes to launch a book of her own for real, preferably fiction - one of the two I'm writing at the moment - being able to face this fear and to go on that platform was an important moment. Yes, it was terrifying, but I now know I can do it. And I can't wait to do it again. So, I guess what I'm trying to say is: take a chance on yourself. You never know what you might discover!