Criar personagens que gerem empatia/On creating relatable characters
Em Londres, onde vivo, há uma organização chamada "London Writer's Salon" que todos os dias, quatro vezes por dia, organiza sessões de uma hora online em que o único objectivo é escrever. A regra naquela hora é "ou escreves, ou não fazes nada" e, mesmo que não estejamos super motivados para escrever, quando a possibilidade de ficarmos só a ver a tinta da parede a lascar se torna real, o teclado chama logo por nós. Desde 2021, quando me mudei para cá, que de vez em quando participo nessas sessões de zoom. Só recentemente descobri que na segunda segunda-feira de cada mês fazem um evento presencial também.
Nesta segunda-feira inscrevi-me e fui. A sessão decorreu como decorreria se tivesse acontecido online, com a excepção de que, ao invés de cinquenta pessoas a olhar para o ecrã de um computador apenas, estivemos uns quinze sentados à volta de longas mesas de madeira. No início das sessões costumamos escrever intenções na conversa associada àquela sessão de zoom. Na segunda-feira fizemo-lo presencialmente. Como se na escola, tivemos de nos voltar para a pessoa sentada ao nosso lado e dizer-lhe: "nestes cinquenta minutos quero escrever...". No meu caso, porque estou outra vez a tentar completar o objectivo das cinquenta mil palavras do National Novel Writing Month (Mês Nacional da Escrita de um Romance), tinha de escrever 1600 palavras.
Quando estamos a falar directamente com alguém ao invés de a escrever no vácuo de um chat, porém, a coisa acontece de forma diferente: do outro lado chegam perguntas também. A pessoa sentada ao meu lado chamava-se Zoe. Estava a escrever um livro de não-ficção sobre lições que aprendeu ao longo dos últimos vinte anos da sua vida profissional e está quase a chegar ao final. A seguir, chegou aquilo que nunca acontece nas sessões online - ela perguntou-me: "E tu?"
"O que estou a escrever é ficção embora muito vagamente baseado em experiência também. Vou pegar naquilo que vivi e tornar tudo muito pior porque uma personagem principal tem de sofrer. É isso que torna uma história interessante, não é verdade?". A Zoe concordou. A seguir contei-lhe, em traços gerais, o que vai acontecer na história. Traços gerais porque nem eu tenho ainda traços específicos. Estou a meio de um primeiro rascunho e, embora tenha uma ideia de como quero que a história progrida, às vezes a escrita escapa-nos da mão, as personagens viram desobedientes e decidem diferente do que tínhamos imaginado. Sei bem que isto deve soar a loucura para quem não escreve. Deve ser por isso que tantas pessoas parecem ter detestado o "Bunny" da Mona Awad (sobre o qual escrevi aqui também), que eu adorei. Debruça-se muito sobre esta coisa estranha que é a escrita.
Enquanto falava, a Zoe ia assentindo e no final disse-me apenas: "Soa muito interessante. Relatable". Isso é o mais importante. O que torna um livro cativante é a sua capacidade de criar empatia. Podemos não ter vivido o mesmo que a personagem sobre a qual estamos a ler, mas, se de algum modo conseguímos que quem está a ler se sinta como se estivesse a passar pelo mesmo que a personagem. Talvez sejam os questionamentos, perguntas que já nos fizemos a nós próprios também ou a reacção da personagem em face de um qualquer problema. Na escrita temos de arranjar forma de puxar os cordelinhos da empatia. Só assim uma história deixa marca no leitor.
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I just recently discovered that the "London Writer's Salon" which every day hosts four writing sessions online also hosts an in-person one, every second monday of the month. This past monday I signed up and went. The session went by as it would have if it had been online, with the exception of having 15 people around long tables instead of 50 just on screens in a zoom session. At the beginning of each session we set intentions and this time we did it too. As if in school, we had to turn to the person sitting next to us and say "in these 50 minutes I want to write...". In my case, because I am once again trying to reach the 50.000 words goal on National Novel Writing Month, I had to write 1600 words.
When we speak directly to someone instead of writing in the vacuum of a chat, however, it is a bit different: from the other side come questions too. The person sitting next to me was called Zoe. She was writing a non-fiction book on lessons she learned over the last twenty years or so as a professional woman. She is almost done with her draft. Then she asked me: "what about you?".
"I'm writing fiction, although very loosely based on things I have experienced. I will take what I lived and make everything a lot worse. A main character has to suffer. That's what makes a story compelling, right?" Zoe agreed. Afterwards, I told her, in broad strokes, what will happen. I don't really have specifics yet anyway. I'm not even halfway through a first draft e, although I have an idea about how I want the story to progress, sometimes writing breaks free of our grasp, characters become desobedient and decide differently from what we envisioned. I know how crazy this must sound for someone who does not write. It's no wonder "Bunny" by Mona Awad was such a polarising book. I loved it exactly because it dwells on this very weird thing called writing.
As I spoke, Zoe nodded along. In the end she blurted out "that's very interesting, Relatable". That's the most important, right? What makes a book captivating is its ability to create empathy. We may not have lived through the same things the character is going through but, somehow, we can understand what they are feeling. Maybe it's because of the questions the character asks herself, questions we have asked ourselves too. Or maybe it's the way the solve a problem. In writing we have to find ways to pull the strings of empathy. That's the only way to leave a mark in the reader.