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Inês N. Almeida

Inês N. Almeida

Criar personagens que gerem empatia/On creating relatable characters

Inês Nobre de Almeida, 14.11.24

Em Londres, onde vivo, há uma organização  chamada "London Writer's Salon" que todos os dias, quatro vezes por dia, organiza sessões de uma hora online em que o único objectivo é escrever. A regra naquela hora é "ou escreves, ou não fazes nada" e, mesmo que não estejamos super motivados para escrever, quando a possibilidade de ficarmos só a ver a tinta da parede a lascar se torna real, o teclado chama logo por nós. Desde 2021, quando me mudei para cá, que de vez em quando participo nessas sessões de zoom. Só recentemente descobri que na segunda segunda-feira de cada mês fazem um evento presencial também.

Nesta segunda-feira inscrevi-me e fui. A sessão decorreu como decorreria se tivesse acontecido online, com a excepção de que, ao invés de cinquenta pessoas a olhar para o ecrã de um computador apenas, estivemos uns quinze sentados à volta de longas mesas de madeira. No início das sessões costumamos escrever intenções na conversa associada àquela sessão de zoom. Na segunda-feira fizemo-lo presencialmente. Como se na escola, tivemos de nos voltar para a pessoa sentada ao nosso lado e dizer-lhe: "nestes cinquenta minutos quero escrever...". No meu caso, porque estou outra vez a tentar completar o objectivo das cinquenta mil palavras do National Novel Writing Month (Mês Nacional da Escrita de um Romance), tinha de escrever 1600 palavras. 

Quando estamos a falar directamente com alguém ao invés de a escrever no vácuo de um chat, porém, a coisa acontece de forma diferente: do outro lado chegam perguntas também. A pessoa sentada ao meu lado chamava-se Zoe. Estava a escrever um livro de não-ficção sobre lições que aprendeu ao longo dos últimos vinte anos da sua vida profissional e está quase a chegar ao final. A seguir, chegou aquilo que nunca acontece nas sessões online - ela perguntou-me: "E tu?" 

"O que estou a escrever é ficção embora muito vagamente baseado em experiência também. Vou pegar naquilo que vivi e tornar tudo muito pior porque uma personagem principal tem de sofrer. É isso que torna uma história interessante, não é verdade?". A Zoe concordou. A seguir contei-lhe, em traços gerais, o que vai acontecer na história. Traços gerais porque nem eu tenho ainda traços específicos. Estou a meio de um primeiro rascunho e, embora tenha uma ideia de como quero que a história progrida, às vezes a escrita escapa-nos da mão, as personagens viram desobedientes e decidem diferente do que tínhamos imaginado. Sei bem que isto deve soar a loucura para quem não escreve. Deve ser por isso que tantas pessoas parecem ter detestado o "Bunny" da Mona Awad (sobre o qual escrevi aqui também), que eu adorei. Debruça-se muito sobre esta coisa estranha que é a escrita.

Enquanto falava, a Zoe ia assentindo e no final disse-me apenas: "Soa muito interessante. Relatable". Isso é o mais importante. O que torna um livro cativante é a sua capacidade de criar empatia. Podemos não ter vivido o mesmo que a personagem sobre a qual estamos a ler, mas, se de algum modo conseguímos que quem está a ler se sinta como se estivesse a passar pelo mesmo que a personagem. Talvez sejam os questionamentos, perguntas que já nos fizemos a nós próprios também ou a reacção da personagem em face de um qualquer problema. Na escrita temos de arranjar forma de puxar os cordelinhos da empatia. Só assim uma história deixa marca no leitor. 

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I just recently discovered that the "London Writer's Salon" which every day hosts four writing sessions online also hosts an in-person one, every second monday of the month. This past monday I signed up and went. The session went by as it would have if it had been online, with the exception of having 15 people around long tables instead of 50 just on screens in a zoom session. At the beginning of each session we set intentions and this time we did it too. As if in school, we had to turn to the person sitting next to us and say "in these 50 minutes I want to write...". In my case, because I am once again trying to reach the 50.000 words goal on National Novel Writing Month, I had to write 1600 words. 

When we speak directly to someone instead of writing in the vacuum of a chat, however, it is a bit different: from the other side come questions too. The person sitting next to me was called Zoe. She was writing a non-fiction book on lessons she learned over the last twenty years or so as a professional woman. She is almost done with her draft. Then she asked me: "what about you?".

"I'm writing fiction, although very loosely based on things I have experienced. I will take what I lived and make everything a lot worse. A main character has to suffer. That's what makes a story compelling, right?" Zoe agreed. Afterwards, I told her, in broad strokes, what will happen. I don't really have specifics yet anyway. I'm not even halfway through a first draft e, although I have an idea about how I want the story to progress, sometimes writing breaks free of our grasp, characters become desobedient and decide differently from what we envisioned. I know how crazy this must sound for someone who does not write. It's no wonder "Bunny" by Mona Awad was such a polarising book. I loved it exactly because it dwells on this very weird thing called writing.

As I spoke, Zoe nodded along. In the end she blurted out "that's very interesting, Relatable". That's the most important, right? What makes a book captivating is its ability to create empathy. We may not have lived through the same things the character is going through but, somehow, we can understand what they are feeling. Maybe it's because of the questions the character asks herself, questions we have asked ourselves too. Or maybe it's the way the solve a problem. In writing we have to find ways to pull the strings of empathy. That's the only way to leave a mark in the reader.

 

 

1160 pequenas correcções / 1160 tiny corrections

Inês Nobre de Almeida, 04.07.24

Cumpri o meu objectivo para Junho!

Durante as últimas três semanas reli pela enésima vez o romance em que estou a trabalhar confiante de que teria de fazer apenas pequenas correcções - gralhas ocasionais, repetições, comparações sem jeito. Encontrei cerca de 1160. Mais de mil. Nunca imaginei. E, mesmo assim, é possível que não tenha apanhado tudo porque estas palavras vieram da minha cabeça e posso estar, em algum momento, a estar a ler o que julgo ter escrito e não o que escrevi de facto. (Tenho mesmo de passar isto para outras mãos). Disto tenho a certeza: a minha história ficará melhor quando corrigir os erros que encontrei.

Mas nem tudo são erros. Basta saber onde quero que a história vá dar para perceber que nem tudo faz falta. Mais do que isso: havia parágrafos e até um capítulo inteiro que era preciso que não existisse para criar tensão, mistério. O que lá estava escrito era dar mais ao leitor do que ele deveria saber, mas eu própria não sabia isso até chegar ao fim.

Este mês começa mais uma edição do NaNoWriMo (National Novel Writing Month) - já há outro post sobre ele, podem ler se tiverem curiosidade - e já há uma história nova na minha cabeça pronta a saltar para o papel ou para o teclado, provavelmente ambos. Não vou impor-me um objectivo louco de palavras porque esta história ainda não sei muito bem para onde vai. Tenho uma ideia, momentos, uma atmosfera que quero passar. Não tenho um enredo. Espero começar a lá chegar com as primeiras 30000 palavras até 31 de Julho e é para isso mesmo que estes desafios com um limite de tempo são óptimos.

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I achieved my goal for June!

 

During the last three weeks I reread my novel for the 300th time confident that I would only have to make small corrections - typos, repetitions, weird metaphors. I was right. But I found 1160. Over 1000 changes that need to be made. I never imagined. Still, it's possible I didn't catch all of them as these words came from my own head and maybe, sometimes, I might be reading what I think I wrote and not what I actually did write. (I reaaaally need to get this into someone else's hands). Of one thing I'm sure: my story will be better once I correct the mistakes. 

Not all of the things I flagged are mistakes. Since I knew where the story was headed I noticed not everything I wrote was necessary. More than that: there were entire paragraphs and even a whole chapter I need to delete to create tension, mystery. What was written there gives the reader more than they should have, but I couldn't know that until I reached the end.

This month is NaNoWriMo time again (There's already a post about National Novel Writing Month on the blog) and there's a new story in my mind ready to jump to paper or computer, probably both. I am not going to set a crazy goal because I'm not too sure where this story is going. I have an idea, moments, a vibe I want it to have. I do not have a plot. I hope I get one by writing the first 30000 words until July 31st. That's why these timed challenges are great!

 

 

 

 

Não é incapacidade nem procrastinação. É falta de plano. /It's not inability or procrastination. It's lack of planning.

Inês Nobre de Almeida, 09.05.24

Olá Olá,

o National Novel Writing Month (NaNoWriMo) terminou há mais de uma semana, já era tempo de vos vir falar deste que foi um mês intenso de muita escrita e também algumas aprendizagens. Comecemos pelo princípio: o National Novel Writing Month (Mês de Escrita do Romance) - NaNoWriMo como costuma ser abreviado - é um desafio que acontece todos os anos em Abril e em Novembro (ambos meses com 30 dias). Durante esses dias, escritores definem uma meta de escrita que por defeito são 50.000 palavras (descobri tarde demais que dava para alterar).

50.000 são muitas palavras. Muitas horas à frente do computador. Quando dei início ao desafio, olhei para a meta como uma impossibilidade, mas achei que o desafio me daria consistência de escrita. Eu já escrevo todos os dias por norma. Há dias em que escrevo um parágrafo, outros em que escrevo cinco páginas. Achei que o NaNoWriMo me ajudaria a escrever mais palavras por dia - para cumprirmos o desafio temos de escrever 1.600 palavras por dia, chegando às 50.000 no dia 30. Mesmo que não cumprisse esse objectivo final das 50.000 palavras, pensei, seria bom cumprir pelo menos as 1.600 por dia em alguns dias. Falhei redondamente o objectivo na primeira semana. E nas semanas seguintes, em alguns dias também. Sobretudo dias de semana, em que trabalho. Compensava nas folgas, escrevia mais que as 1.600 palavras nesses momentos.

Mas mais do que este compensa aqui, puxa ali, o que me fez conseguir cumprir o objectivo de 50000 palavras em 30 dias (no meu caso foram 29 dias que só comecei no dia 2 de Abril) foi algo muito diferente. Foram as lições que aprendi ao longo deste processo:

  • É óptimo ter metas e prazos definidos - sabermos que temos um certo tempo para escrever um determinado número de palavras permite-nos planear a nossa rotina de escrita, algo que nunca fiz e este mês aprendi quão importante é. Não tinha conseguido cumprir o meu objectivo se não definisse os dias em que conseguiria escrever mais ou escrever menos e cumprisse esse plano. 
  • Caderno para todo o lado - Relacionado com o tópico de cima também, é crucial andar com um caderno para todo o lado. Já ando, por norma, mas costumava escrever só na minha hora de almoço, à noite depois do trabalho. Durante o mês passado, escrevi em paragens de autocarro, escrevi nos próprios transportes, escrevi onde conseguia porque tinha um caderno sempre comigo.
  • É preciso ter pelo menos um plano geral antes de se escrever - Eu não tinha. O resultado? Vou na terceira ronda de edições e em vez de estar a olhar à ortografia e às palavras que soam melhor ou pior ainda estou a fazer mudanças estruturais na história porque há questões por responder. Além disso, nos últimos dias do NaNoWriMo dei por mim, novamente, a não saber muito bem onde integrar algumas coisas que têm de acontecer pois não tinha um plano. Foi a primeira coisa que defini assim que o desafio chegou ao fim.
  • Pode ser importante escrever coisas que nunca vão acontecer no projecto final - Estando a chegar à terceira e última parte da história que estou a escrever, apercebi-me de que não era assim tão claro na minha mente como tinha acontecido A CENA que empurra todo o enredo para a frente logo num dos capítulos iniciais. A cena em causa não estará escrita na história, apenas a reacção das personagens ao que acontece, mas é importante que eu, que estou a escrever, saiba ao pormenor como tudo aconteceu. Essa cena está neste momento escrita no meu caderno e provavelmente nunca de lá irá sair. Mas, pelo menos, consigo visualizá-la de forma muito clara. 

Se também estão a escrever e a aprender como isto se faz (como eu também ainda estou), espero que estas minhas aprendizagens do NaNoWriMo e dicas sejam úteis! Têm outras? Partilhem nos comentários!

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Hello, hello!

National Novel Writing Month (NaNoWriMo) has ended over a week ago, it's time to tell you about this intense month of writing and learning. For those of you who don't know what NaNoWriMo is, it's a chellenge which happens every year in April and November (both months with 30 days). For those days, the writers establish a goal which, by default, is 50000 words (I found out too late that I could actually change it).

50000 are a lot of words, lots of hours in front of a computer screen. When I started the challenge, I looked at that goal as something impossible. I just thought the challenge would make me more consistent with my writing. I already write every day. Some days I write a paragraph, others I write five pages. I thought NaNoWriMo would help me writing more words per day - to complete the challenge we have to write, on average, 1600 words a day. Even if I didn't accomplish the 50000 word goal, I thought, at least I could try achieving the 1600 daily goal in some of the days. I failed greatly on the first week. The following weeks, I missed the mark on some days too, particularly week days, in which I work. I made up for it on my days off.

More than making up for it on weekends, what made it possible for me to achieve the 50000 word in 30 days goal (I did it in 29 days, as I started April 2nd) was something totally different. It was everything I learned throughout this month:

  • It's amazing having goals and deadlines - Knowing we have a certain deadline to write a certain number of words allows us to plan our writing routine, something I have never really done and this month I learned just how important it is. I would never have achieved my goal if I didn't set the days in which I knew I absolutely could write more or for longer, and those days which I would have less time.
  • Notebook everywhere - Also related with the topic above, it's crucial to have a notebook on me all the time. I usually carry one already, but only wrote on my lunch break, at night after work. During April, I wrote on bus stops, on the transports themselves, wherever I could, because I always had a notebook on me.
  • It's necessary to at least have a general plan for the story before writing - I didn't. What happened? I'm in my third round of edits and instead of nitpicking words which sound better or catching quick typos, I'm still doing structural changes because there are unanswered questions and not on purpose. Besides, in the final days of NaNoWriMo, I found myself, again, not really knowing how to incorporate things I knew had to happen, because I did not have a plan. First thing I did after the challenge was over was to set a plan.

  • It may be important to write things which will never end up in the final version - I'm starting the third and final part of my story and I realized that it wasn't all too clear in my mind how THE SCENE which moves the whole plot forward right at the beginning happened. That scene will not be part of the novel, the reader will only get to see its aftermath, how characters react to it, but it's important that I, the writer, know how it happened, in detail. That particular scene is currently written in my notebook and will probably never leave its pages. At least, I can see it so clearly now.

    Are you also writing and learning how to do it (as I still am)? If so, I hope these things I learned from NaNoWriMo also help you! Have other tips? Share in the comments!